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Infância das águas Meu rio não
era um rio verdadeiro. Era um rio de infância. Ele corria, misterioso e sereno, e eu o olhava, embevecida. As pedras roliças perderam as arestas pela constante passagem das águas que as acarinhavam, feito gesto de amor perene, antigo. Rio impoluto, orgulhoso de ser. As margens se abriam feito arregaço materno. O rio cantava. Som misterioso, dolente. As águas bailavam ao canto do vento, integrando-se na sinfonia dos pássaros, das folhas, dos gritos estridentes dos animais em passos corredios. Os seixos faziam borbulhar as águas, a superfície em circunferências repetidas se expandindo, sem um lamento, no silêncio sagrado das águas soberanas. Conduzia-me a lugares apenas imaginados, como se tivesse sedimentado na raiz do sonho. Seria loucura pensar estar voltando à semente projetada, à infância da Natureza? O mundo surgindo, nascendo, tomando formas diversas? Esse era um rio que, no mais recôndito da memória se escondia, se esquivava dos caminhos impressentidos. Precisava mergulhar, o corpo reclamava. Sentia as águas escorregando sobre meu corpo. Percorreu minhas veias que as sugou, serenas. Transformou-se em seiva que me alimentou. Impregnei-me de arrepios na sacralidade da comunhão com a Natureza. Depois vi: elas se turvaram contaminadas pelo que eu trouxera do mundo. (Tanto tempo se passou até o retorno. De longe ouvi um estrondo: grito de angústia e desespero. Doeu-me vê-lo: suas águas se transformaram em turvas águas. O fluxo desaparecera. Onde estava meu rio? Quem levara suas águas, quem as roubara? Estariam submersas? ) O rio, hoje, apenas
um caminho árido e vazio. Leito sacrificado às mazelas
do mundo. |
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