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Sertanidade
Por Carlos Severiano ttcanti@uol.com.br |
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MARCOS
PASSOS, jovem poeta pernambucano, nascido em São
José do Egito, Alto Sertão do Pajeú, autor
da Antologia Poética – Retratos do Sertão escreveu
e inseriu nesse livro, duas estrofes em sinal de agradecimentos
e mais três (todas no ritmo de martelo agalopado), em homenagem
aos grandes e geniais poetas/repentistas sertanejos, já falecidos. |
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AGRADECIMENTOS
“Aos
poetas que cantam a grandeza
Desse solo de quadros divinais
E ao dom dos poetas imortais,
Que o versaram com brilho e com nobreza.
Neste livro, traçaram a natureza
Com saber, com mestria e com verdade;
Os costumes do povo e a saudade
Do recanto, por Deus, abençoado,
Esse nosso sertão, que foi pintado
Com a tinta da sensibilidade.
Aos
primeiros sinais de invernada,
Logo após longo tempo de estiagem,
Lá da serra, do vale e da barragem
Escutamos os sons da trovoada.
Vislumbrando a campina esverdeada,
Sertanejo se anima igual criança.
Logo mais, quando o mato se balança
E um corisco clareia o céu nublado,
Cai a chuva no colo do roçado,
Germinando o pendão da esperança”.
HOMENAGENS
“Como
os vates, no solo do sertão,
Os poetas de cima estão sorrindo!
Marcolino e Filó estão ouvindo
A cantiga saudosa do carão;
Escrevendo poemas tem Cancão
Ladeado por Zeto e Zé Vicente;
Encantando o sertão e sua gente
Temos Jó e também Zezé Lulu
E brilhando no céu do Pajeú,
Lourival é o mestre do repente.
Tem
Antonio Marinho repentista,
“Faraó da viola”, “Rei dos versos”;
Percorrendo caminhos tão diversos,
Temos Dimas Bibiu em nossa lista.
Palmilhando a seara sertanista,
Temos Paulo Cardoso e Bio Crisanto,
Recostados, fazendo num recanto,
Mil sonetos de luz e de nobreza
E exaltando o poder da natureza,
Temos Dimas Batista, em outro canto.
Pinto
Velho, o gigante de Monteiro,
Improvisa em total velocidade;
Com a mente em eterna claridade,
Faz repente no céu o tempo inteiro.
Ao seu lado, com porte altaneiro,
Temos nosso imortal Rogaciano,
Que traduz as paisagens, muito ufano,
Desse nosso sertão mais colorido,
Esse tema por todos preferido
E cantado pra nós em outro plano”.
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Ao brilhante poeta Marcos Passos,
Eu confesso o maior contentamento
Quando vejo com tanto encantamento
Os seus versos mandados aos espaços,
Às alturas, talvez aos entrelaços
Dos poetas que estão no céu distante
Escutando essa verve coruscante
Desse jovem rebento do sertão.
Fica aqui com maior satisfação
Os louvores de Carlos Cavalcanti.
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Cortiços
de uruçus, suspensos nas embiras atadas aos caibros, decoravam
os três alpendres do chalé onde eu nasci. Nossa mesa
premiava-se com o melhor mel de abelhas do mundo. Meu pai fazia
a colheita pertinho do Natal. O mel, em tom claríssimo e
transparente, semelhava-se a um líquido feito de madrepérolas.
A colheita, em vasilha de barro sobreposta por uma urupema (peneira
de palha), com a finalidade de filtrar o produto e impedir a passagem
do saburá (resíduo amargoso proveniente do pólen
das abelhas) e de torrões de barro que antes serviram de
tapumes na vedação do cortiço.
A minha participação naquela hora, além de
colaborar com o meu pai, tinha duas finalidades: a primeira, receber
as bolas/favos (semelhantes a cachos de uvas roxas do Vale do São
Francisco), saídas da colmeia transbordante do inigualável
mel; a segunda, a cera de tonalidade preta para o meu artesanato.
Antes, porém, devolvia-se todo o saburá e parte da
cera para o interior do cortiço a fim de que as abelhas reiniciassem
a nova fabricação de mel. A Rainha lá estava
para dar continuidade à produção. A mata virgem
fornecia flores abundantes àqueles insetos melífluos.
A minha alegria era incalculável. Com o bolo de cera nas
mãos corria para uma tigela cheia d’água e lavava
o material a fim de extrair qualquer resquício de mel ali
existente. Depois a deixava numa tábua, coberta por uma tela
fina e exposta ao sol para a devida secagem. Não podia ter
nenhuma abertura maior, senão, as abelhas levariam tudo de
volta para o cortiço. Após dois ou três dias
a cera estava seca. Momento de amaciá-la e entrar em cena
com a minha instintiva arte em fazer miniaturas de animais: vacas,
touros, cavalos, cachorros, etc.
Havia na fazenda uma vaca muito bonita chamada Cocozinha. Era de
quem eu mais gostava de beber leite nas madrugadas incontáveis.
No meu artesanato imitei quase toda a vacaria. E os touros, também:
esculturei Damasco, Tarugo, Tupã, Aratanha e Mariola. Jangada
foi outra copiada em cera e sempre lembrada por mim. (Aquela que
morreu de parto, cujo couro esticado na baraúna provocou
uma espontânea e bela homenagem de sentimento irracional em
todo o rebanho a gemer e babar, orquestradamente, aos pés
daquela árvore expositora dos restos mortais de Jangada).
Quanto à Cocozinha, a coisa foi diferente, caprichei na miniatura:
o feitio da cabeça, do traseiro, do pequeníssimo cupim,
do úbere apojado, da cauda longa e daquele chifre esquerdo
bem mais torto que o direito. A cópia ficou maravilhosa!
Depois de seca, juntei-a ao minúsculo rebanho e os guardei
sobre tábuas e cobertos por cuias de cuité (espécie
de cabaça).
Achei por bem, num domingo ensolarado, logo após o famoso
cozido dominical brincar no alpendre das flores com o meu querido
rebanho de morenice uniforme.
Debaixo de uma frondosa avenca, ao lado do pé de jasmim de
cera fiz a exposição do gado a pastar na manga (cercado)
em frente ao curral, tudo improvisado num quadrado de capim verde
e cercas de sabugos de milho. Com o chapéu de palha espantava
as abelhas intrometidas que chegavam atraídas pelo agradável
cheiro da cera. Ao meio de tudo coloquei, em posição
de furiosa briga, os dois touros: Tupã e Damasco. Um panorama
encantador!
A brisa da tarde soprava abundantemente. O canário-da-terra
na gaiola do alpendre executava no seu violino de plumas as mais
belas melodias em gorjeios.
Coque e Gaúcho, cachorros da fazenda, roncavam no sono profundo
depois da degustação dos ossos do cozido, sob a majestosa
sombra da calçada onde eu brincava.
Meu pai espichado na rede amarela tirava um ronco no alpendre de
baixo. Minha mãe, juntamente com as quatro filhas falava
sobre costuras na saleta que ficava por trás do local onde
estava a minha exposição.
Após longo tempo de lazer e entretenimento, sem me aperceber,
o sono dominou-me completamente e virei para um lado ficando por
mais de uma hora numa profunda e gostosa soneca. Acordei atarantado
lembrando-me das abelhas. Deparei-me com um festival de asas. A
vacaria bastante avariada, os touros, também. Damasco perdeu
a cabeça e Tarugo, com apenas três pernas, caído
ao chão. Nada que não pudesse ser consertado com o
restinho de cera em meu poder. Quanto à Cocozinha restava
apenas um pedaço do rabo e parte do chifre torto. A decepção
não tinha limites. Chorei copiosamente. O estoque de cera
havia acabado e somente no próximo ano seria reabastecido.
O que fazer? Naquela noite não dormi: ficar sem Cocozinha
não era possível. Dia seguinte tomei uma resolução
imediata: fui ao barreiro trouxe um bolo de argila e fiz outra vaquinha
semelhante à anterior. Pus ao sol para secar sem perigo de
ser roubada pelas uruçus. Não tinha um forno apropriado
para cozinhá-la, apelei mesmo para a secagem natural. Ficou
uma beleza! Guardei junto ao rebanho de cera tendo o máximo
cuidado para não quebrá-la. Era bonita, mas, crua
e frágil.
Continuei a brincar do mesmo jeito, embora, prevenido com o sono.
A vaquinha de barro, em tom amarelo/ocre destacava-se das demais:
aumentava o meu pegadio por ela.
Chegou o mês de junho. O inverno rigoroso enchia de satisfação
os corações de todos os agricultores. Numa tarde daquele
mês o sol reapareceu exuberante. Corri para o quarto das celas
e trouxe o meu gado para brincar no alpendre das flores. Fiz a exposição
incluindo Cocozinha bem na frente da calçada. Ficou uma beleza!
Brinquei à vontade, construí meus castelos de areia:
imaginei-me dono de um rebanho de verdade. Haja sonho de criança
campeira! De repente, uma forte chuva de recuada, juntamente com
muita ventania molhou tudo. O gado de cera salvou-se. Cocozinha
simplesmente desmanchou-se: virou argila mole, novamente. Pus as
mãos na cabeça e comecei a chorar. Meu pai vendo-me
naquela aflição aconselhou-me a esperar a nova tiragem
de mel em dezembro para que eu fizesse outra vaca ainda mais bonita.
Conformei-me com o conselho dele.
Em dezembro, a verdadeira Cocozinha estava de bezerro novo. Boa
de leite foi emprestada a um tio meu e levada para uma cocheira
na cidade a fim de suprir a casa do estimado irmão de meu
pai.
No verão as vacas leiteiras carecem de uma ração
extra para que a produção de leite não diminua.
A mandioca, bem como as manivas (caules) é uma excelente
alimentação para o gado, porém, não
se pode servi-la no dia em que a colhemos. A manipueira, líquido
venenoso da mandioca só perde o efeito nocivo após
vinte e quatro horas de colhido o produto e triturado com marretas
de madeira para que o gado possa comer no dia seguinte, com segurança.
Aconteceu um infortúnio: Cocozinha, no primeiro dia na cidade,
recebeu do tratador de gado do meu tio, o cocho repleto de manivas
e mandiocas manipeba (a mais venenosa), recém-colhida e cortada
de faca para a ração do dia. A vaca não terminou
de comer o volume todo e caiu arquejando e revirando os olhos, enquanto
a barriga dilatada dificultava a respiração: morreu
em pouco tempo.
A notícia chegou à fazenda causando um sentimento
de perda inacreditável.
Nunca mais fiz outra Cocozinha nem tomei leite tão gostoso
como antes...
As vaquinhas de cera e de barro queriam dizer alguma coisa.
Ou não queriam?
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Recife,
5 de outubro de 2009.
Carlos Severiano Cavalcanti.
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Carlos Severiano Cavalcanti – escritor, membro
da União Brasileira de Escritores (UBE); União
Brasileira de Trovadores (UBT); Sociedade Brasileira de Médicos
Escritores (SOBRAMES); Instituto Histórico de Olinda,
Academia Recifense de Letras; Academia de Letras e Artes do
Nordeste Brasileiro (ALANB); Academia de Artes, Letras e Ciências
de Olinda; Sociedade dos Poetas Vivos de Olinda. É
detentor de vários prêmios literários.
Dentre seus livros estão Caminhos da Vida, 1997; Reflexos
do Sol, 2001; Sertanidade, 2004; A Gênese do Tempo,
2007. |
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