Sertanidade
Por Carlos Severiano ttcanti@uol.com.br
     
         
 

“PERNAMBUCO MOSTRANDO PARA O MUNDO”

Por quase todo o decorrer do Século XX, a Rádio Jornal do Commercio mantinha em seu prefixo programático o slogan: “PERNAMBUCO FALANDO PARA O MUNDO”. Até hoje isso serve de comentários do quanto os pernambucanos são orgulhosos das grandezas e potencialidades de sua terra.
Agora, surge a Editora Novo Horizonte, sob a liderança de Lourdes Nicácio, essa desbravadora, competente e dedicada acadêmica e escritora, aliada à sua filha, a também eficiente profissional do jornalismo e da eletrônica, Raphaela Nicácio inaugurando nesta noite memorável o Site Portal dos Escritores Pernambucanos. Trata-se de uma grande abertura jornalístico/literária que trará para todos nós, usuários da caneta e do computador, a oportunidade de expelir de nossas mentes as inspirações prosaico/poéticas que tanto nos conforta e satisfaz.
Entretanto, desta vez, graças à universalidade da eletrônica, o slogan da antiga rádio vai ser visto neste Portal de forma diferente, ou seja: PERNAMBUCO MOSTRANDO PARA O MUNDO. As nossas colunas eletrônicas neste Site veicularão, no infinito da Internet, os nossos trabalhos, abrindo um canal de comunicação imensurável, sem contiguidade física e sem a interveniência de lideranças oportunistas. Serão mensagens internacionalizadas e a quem interessar possa.
Estaremos expostos a críticas e elogios. Saibamos mensurar a repercussão do nosso labor literário. Que tenhamos a iniciativa de fazer da crítica o pedestal de melhoras e que o incentivo das pesquisas nos leve à busca do aperfeiçoamento. Quanto aos elogios, que estes estimulem o nosso ego, sem, contudo, empurrar-nos para o abismo das vaidades excessivas.
O intercâmbio das comunicações eletrônicas não terá o simples papel de entretenimento, apenas. Será o canal das nossas mensagens buscando as decodificações e respostas dos inúmeros receptores, do Brasil e do mundo.
Os escritores pernambucanos, notadamente os vinculados à UBE e às Academias do Recife, de Olinda e de todo o Estado, até mesmo os iniciantes ainda não vinculados a instituições literárias, estamos de parabéns com a grande abertura dessa comunicação.
É realmente incomparável o gigantismo das produções literárias nesta nossa região nordestina. Os oceanos abissais que nos separam do Brasil dito evoluído do sul maravilha, já não conseguem afogar as nossas ideias: saímos das canoas furadas dos mares terrestres e entramos no ultraleve veículo dos satélites espaciais. A discriminação contra o Nordeste é muito forte. A raça dos nordestinos é gigantesca. Os grandes conglomerados de editoras abaixo da Bahia continuarão a privilegiar os famosos de carteirinhas. Entretanto, a concentração de computadores é bem maior por lá do que por aqui. O nosso Portal tem passagem livre para entrar nas mansões e nos palacetes. A força da juventude é inquebrantável. Navegar para os jovens não significa apenas cruzeiros marítimos. A Internet é o barco preferido. A curiosidade tem forças de gigante. A nossa linguagem aguçará essa curiosidade, sem dúvidas.
As novas exigências para os futuros vestibulares indicam o domínio da cultura geral. Não são apenas os livros de escritores famosos os indicados. A abrangência é bem maior. As técnicas do romance, da crônica, do conto, do ensaio e da poesia serão exploradas nas universidades. O domínio do conhecimento, oriundo dos livros, é bastante enriquecido com o cabedal eletrônico do computador. Os jovens bem o sabem. Os mais vividos, as crianças antigas, como eu, encontram no monitor um naipe de informações palatáveis para os variados sabores do conhecimento. O nosso Portal será, de agora em diante, um componente desse naipe.
Os links são variados. Estudantes, poetas, professores e demais pessoas encontrarão em nosso Portal uma fonte abrangente de informações preciosas.
É bastante salutar para todos nós uma iniciativa como esta. A visão das empreendedoras deste evento excede, em muito, a trivial comodidade daqueles que se conformam com as precárias delimitações do nosso espaço artístico/cultural reduzido ao magro limite do nosso município.
O galope do cavalo alado da informática não permite cansaço, nem tampouco, a lentidão característica dos que viajam sob a tração dos animais.
Vamos adiante. No meu caso, buscarei nas sertanidades da vida os dados informativos para a minha coluna virtual. Tentarei vivificar, dentro das minhas limitações, a linguagem do semi-árido nordestino para que o falar brasileiro seja uníssono no seu entendimento e mais rico nos seus regionalismos. Espero uma inter-relação saudável e alvissareira.

  DIETA SERTANEJA.

__________________Carlos Severiano Cavalcanti

No sertão nós comemos tapioca,
jerimum, feijão-gordo e milho assado,
maxixada e farofa com guisado,
carne seca moída na paçoca,
milho quente dançando na pipoca,
o tutano a brilhar sobre o pirão,
mamão verde no falso camarão,
carne assada comida com angu,
café quente tomado com beiju
logo após de um gostoso rubacão.

Saboroso cuscuz (ralando o milho)
e depois, borrifado em leite quente,
comida natural de nossa gente,
as espigas ligadas pelo atilho.
Sobremesa crocante do sequilho,
mel de abelha por cima do cará,
a terrina esborrando munguzá,
no domingo a famosa panelada,
manhã cedo a tigela de umbuzada,
mel de furo, castanha e corrumbá.

Mariola, jabá e macaxeira,
o pirão degustado na buchada,
o sabor destacado da cocada,
água doce apanhada na biqueira,
goma pura e farinha sem crueira,
bode assado, e também raspa de queijo,
deixa a boca repleta de desejo
nessa vasta dieta do sertão,
sem falar na panela de capão,
mesa farta a do nosso sertanejo.

A famosa galinha cabidela,
o gostoso feijão baião de dois,
onde a carne cozida com arroz
faz o cheiro emanar lá da panela.
A banana adoçada e com canela,
fava branca cozida e temperada,
jerimum machucado na coalhada,
sem deixar de comer queijo de coalho,
batata doce assada no borralho
e leite no curral de madrugada.

A farinha de milho no feijão,
a canjica e a pamonha no jantar,
pé-de-moleque bom de paladar,
café preto batido no pilão,
charque assada e farofa de bolão,
o sabor dessa mesa é inconteste,
a nossa culinária se reveste
das melhores riquezas naturais,
nossas frutas e nossos vegetais
são manjares na mesa do Nordeste.

 
       
   
>> Carlos Severiano Cavalcanti – escritor, membro da União Brasileira de Escritores (UBE); União Brasileira de Trovadores (UBT); Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES); Instituto Histórico de Olinda, Academia Recifense de Letras; Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro (ALANB); Academia de Artes, Letras e Ciências de Olinda; Sociedade dos Poetas Vivos de Olinda. É detentor de vários prêmios literários. Dentre seus livros estão Caminhos da Vida, 1997; Reflexos do Sol, 2001; Sertanidade, 2004; A Gênese do Tempo, 2007.