| |
| |
La participación comunitaria evita las dificultades de comunicación, característica del monólogo museográfico emprendido por el especialista, y recoge las tradiciones y la memoria colectivas, ubicándolas el lado del conocimento científico.”
(Declaração de Oaxtepec, 1984) |
Falar da interface entre campos tão recentes e, ao mesmo tempo, detentores de imensos potenciais de intercâmbio e cooperação não é tarefa fácil. Prescinde de uma visão aberta, sem preconceitos , que procure estabelecer nexos de como a comunicação e a educação, em seus diferentes saberes, podem contribuir para a consolidação de práticas de inclusão social, o que é a finalidade da museologia social. Das teorias de comunicação, a que mais se aproxima da museologia social é justamente a da comunicação comunitária. Relativamente recente na academia (dos anos 70 para cá, ainda está em construção seu arcabouço teórico, mas o que temos já nos permite uma aproximação epistemológica entre as áreas.
Nas últimas décadas, manifestações de tal ordem, ocorridas em nível da sociedade civil, vêm revelando a existência de uma comunicação diferenciada, a partir dos envolvimentos referidos, principalmente aqueles gerados no seio das camadas subalternas da população ou a elas ligados de modo orgânico. As pessoas, ao participarem de uma práxis cotidiana voltada para os interesses e as necessidades dos próprios grupos a que pertencem ou ao participarem de organizações e movimentos comprometidos com interesses sociais mais amplos, acabam inseridas num processo de educação informal que contribui para a elaboração-reelaboração das culturas populares e a formação para a cidadania.
A comunicação comunitária ou popular é exercida pelo povo e para o povo, utilizando-se de canais como as rádios comunitárias, jornais populares, informativos de movimentos, etc. Prescinde do direito de todo ser humano ter acesso e produzir a informação, seja em saúde, seja em outras áreas.
A comunicação comunitária é feita através da participação e do compromisso com a comunidade. Através de ferramentas comunicacionais, a comunidade faz sua comunicação. Por ter um caráter de comunicação voltada para servir à comunidade, esse tipo de comunicação tem como característica identificar e transmitir os interesses da comunidade em que está inserida. A comunicação comunitária pode ser feita através das rádios comunitárias, dos jornais de bairros, de jornal-mural, de rádio-poste, de fanzine, dentre outros. Por causa da falta de espaço na grande mídia, a comunicação comunitária é criada para as comunidades locais, como uma forma de expressão e de resistência a essa discriminação midiática.
Nesse tocante, há experiências de estudantes, ONGs e movimentos sociais que realizam trabalhos para promover a qualidade de vida na comunidade. Escrevem scripts de rádio, textos para jornais de bairro, etc. Também é a comunicação pensada na linguagem que o povo entende e pratica. Procura respeitar as práticas e culturas locais, e é por isso que sua interface com a educação popular é intensa.
A comunicação comunitária tem outra característica: o trabalho social, tendo em vista que a maioria dos meios de comunicação que trabalham com a comunicação comunitária se sustentam de doações, dentre outros. Então há uma grande força de vontade de fazer comunicação por parte das comunidades.
Surgiu da necessidade de democratizar a informação, importante alternativa para promover e ampliar o debate sobre as relações entre comunicação, educação e comunidade. Tendo em vista a manipulação de informação pelas grandes empresas de comunicação que dominam o mundo, a comunicação comunitária veio para dar voz às pessoas que por causa dessa manipulação não conseguem se expressar e expor seus problemas.
A comunicação comunitária acredita numa nova forma de informar e educar, respeitando os saberes populares. Valoriza-se a cultura local, resgatando a história, as tradições, informando festas e eventos daquela determinada região.Pressupõe uma ideologia de transformação, desconstruindo modelos prontos e estimulando a participação popular não somente na audiência, mas inclusive na produção de tais produtos comunicativos. Isso significa escrever roteiros de vídeo, scripts de programas de rádio, matérias par jornal, etc.
Na perspectiva de que o museu saia de si mesmo e procure a comunidade, buscando construir com ele e não para ela um novo paradigma de museu é um processo que prescinde a mudança de atitude dos profissionais dos museus. Não devem encarar-se mais como detentores dos saberes ou guardiões de uma memória, mas facilitadores no processo de fluição artística, transformando a visita ao museu não somente uma obrigação acadêmica, mas uma maneira prazerosa de descobrir-se novos horizontes, ampliarem-se conhecimentos, formando cidadãos cônscios de que o passado não está morto, mas presente em cada momento, ajudando-nos a traçar os rumos de nossas vidas.
Experiências interessantes, como a da Professora Maria Célia T. Moura Santos. Juntamente com seus alunos da Universidade Federal da Bahia, desenvolveu uma experiência de museologia social, com o objetivo de apresentar o Museu de Arqueologia da UFBA a todo o corpo docente, discente e de funcionários do Colégio Estadual Gov. Lomanto Jr., unidade escolar próxima ao museu. Numa posição de quem realmente assumiu essa nova forma de fazer museologia, Célia Santos conseguiu desenvolver, em seis meses, um planejamento, com a participação dos mesmos, no objetivo de adequar os conteúdos das disciplinas às coleções expostas nos museu.
Para tanto, a professora e seus orientandos tiveram de se despir de conceitos apreendidos na museologia tradicional, saindo do processo museológico com ênfase na coleção e no objeto e partir para o processo com ênfase na coleção e no contexto urbano, bem como na relação homem/patrimônio cultural.
Semelhante experiência mereceria uma análise mais apurada, que não tenho tempo de colocar aqui. Mas, de antemão, podemos concluir que o resultado de todo esse árduo trabalho foi a redefinição da relação entre museu e escola, a aproximação do fazer acadêmico com a prática museal pautada na inclusão social e a construção de um novo modelo de planejamento e gestão dos espaços museais.
Eis o interessante depoimento da professora Célia, em seu artigo Estratégias museais e patrimoniais contribuindo para a qualidade devida dos cidadãos: diversas formas de musealização, publicado na Revista CIÊNCIAS E Letras, de Porto Alegre (2000):
| |
Consideramos que as práticas museológicas desenvolvidas ao longo dos anos com base nos princípios de “Movimento da Nova Museologia” têm contribuído efetivamente para o enriquecimento da produção do conhecimento em nosso campo de atuação e para melhoria da qualidade de vida. Consideramos também como de maior urgência a quebra do isolamento, ou seja, a abertura dos museus instituídos e dos outros processos museais, no sentido de realizar o intercâmbio necessário, no respeito à diferença, buscando a troca salutar, o enriquecimento com a experiência do outro, o incentivo à criatividade e à abertura de novos caminhos. É inadmissível que após mais de 20 anos de experiências concretas, em diferentes contextos e países, com resultados divulgados e conhecidos pelos nossos pares, ainda estejamos vivendo em “feudos”, aplicando rótulos, recusando-nos a enriquecer com a experiência do outro. O que está em jogo é o uso que estamos fazendo da Museologia. Por outro lado, estamos cansados de assistir à apropriação do discurso que não é coerente com a prática, dos falsos adeptos da Museologia dita social, quando compreendemos que a Museologia propriamente dita implica ação social. Aprender com a diferença, sem camuflar os nossos propósitos é princípio básico da ética profissional. As formas de musealização serão sempre renovadas, enriquecidas, desde que tenhamos iniciativa e a determinação necessária à abertura de novos caminhos. Com certeza, os problemas nunca serão resolvidos de forma definitiva. O que temos realizado é resultado de um processo prolongado de aprendizagem que nos tem feito crescer nos aspectos pessoal, profissional, e que nos conduz a, junto com o outro, construir novos questionamentos e buscar novos caminhos.
(SANTOS, 2000, p. 118) |
Outra experiência interessante é a do Museu de Favela (MuF) no complexo Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, no Rio de Janeiro. O Museu é uma ação do Programa Mais Cultura, os Pontos de Memória, do Ministério da Cultura. Assim se expressou notícia veiculada no site do MinC, em 14 de fevereiro de 2008 (http://mais.cultura.gov.br/2009/02/13/mais-cultura/):
O Museu de Favela (MuF) está promovendo um grande roteiro de visitação turística, a céu aberto, que percorre os morros do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. A proposta é mostrar a influência das culturas indígena, negra e nordestina, que se misturaram na região ao longo dos anos.
| |
O Museu da Favela também terá como missão desmitificar a imagem das favelas como guetos, associadas só à violência e à miséria a partir da valorização da diversidade cultural da comunidade expressa no samba, capoeira, forró, rap, grafite, artes plásticas, rádios comunitárias, artesanato, arte popular, e também dos bares, pensões e construções que mantêm a identidade típica de favela.
(BRASIL, 2009) |
Essa é uma experiência de MUSEU COMUNITÁRIO que corresponde às expectativas de inclusão social preconizadas pela Nova Museologia. Faz dos moradores das comunidades atores de cultura, participando ativamente da preservação da memória do patrimônio imaterial. Tira também do museólogo, crítico de arte ou gestor a prerrogativa elitista e autoritária de definirem, sozinhos, o que é ou não acervo, arte, bem cultural ou patrimônio imaterial.
Refletindo as conexões que poderiam ser feitas entre a comunicação e a educação para a museologia social, poderíamos sugerir trabalhos que utilizassem as rádios comunitárias como veículos educativos que estimulassem a aproximação do museu e do público em geral, seja através de programas de rádio específicos de educação para o patrimônio ou cultura em geral, seja por meio de inserção de chamadas de rádio (os chamados spots). Os jornais comunitários também poderiam ser parceiros importantes nessa empreitada, sendo sensibilizados a veicularem matérias de educação para os museus, cultura, patrimônio etc. Como esses veículos têm um compromisso de levar uma programação (rádio) ou veicular notícias (jornal) como um conteúdo mais crítico, fugindo aos padrões midiáticos hegemônicos, certamente haveria possibilidades de parcerias para produção de séries de matérias ou programas radiofônicos enfocando tais temas.
A outra área quase virgem a ser explorada é a da comunicação digital comunitária. Sabemos que os avanços tecnológicos, principalmente a criação e disseminação da internet, facilitou em muito o acesso e produção de conteúdos de comunicação. Sendo um dos meios mais interativos já inventados pelo homem, a internet possibilita uma comunicação de mão dupla, à medida que o emissor também faz o papel de receptor, recebendo feed-backs de mensagens. Prova disso são os inúmeros blogs, que se tornaram instrumentos de democratização da comunicação justamente por serem de fácil manuseio. Embora a inclusão digital ainda não esteja consolidada em nosso país, sem dúvida, o acesso ao mundo virtual está muito mais disseminado que quando surgiu a Word web wibe, em meados dos anos 90 no Brasil. Qualquer periferia hoje em dia dispõem de lan-houses, que, por preços acessíveis, possibilitam que inúmeros usuários, na sua grande maioria jovens, possam disfrutar da infinita oferta de informações e comunicação que esse meio oferece.
O que chamaria de comunicação digital comunitária é tão somente a gestão compartilhada os instrumentos de comunicação e informação que a internet ofertece. Em parceria com as comunidades, os profissionais de museus poderiam criar blogs ou sites sobre educação patrimonial, numa linguagem jovem e acessível a esse público. Com a assessoria adequada de profissionais de comunicação, projetos desse porte poderiam aproximar mais o museu do seu público; não somente criando e mantendo museus virtuais, mas principalmente desenvolvendo listas de discussão e disponibilizando textos didáticos adequados a esse público em blogs ou sites sobre educação patrimonial. Poder-se-ia também criar newslewtters (jornais virtuais) com a produção e editoria compartilhada com a comunidade circunvizinha ao museus. Para tanto, seria necessária uma capacitação em conteúdos mínimos de Teoria da Comunicação, Comunicação Virtual e a Produção de conteúdos e Desgn na internet. Uma parceria com a universidade, por exemplo, poderia viabilizar, de maneira menos onerosa, essa ação.
Tais ações transformariam o edifício em território, o acervo em patrimônio, alterando a mentalidade de público-alvo para a de comunidade participativa e a ação educativa como ato pedagógico par ao desenvolvimento.
Inúmeras são as propostas de interface que poderíamos pensar para as três áreas, inclusive acadêmicas. No campo da educação, estudar como as disciplinas mais ligadas à área, como a Educação Artística, a História e a Geografia, além das Ciências Exatas (Química e Física) estão trabalhando os conteúdos de suas visitas aos museus; qual a concepção que os mestres têm da educação museal e como isso influencia a aprendizagem dos alunos.
Em relação ao público não-escolar, poderiam ser realizadas pesquisas para inferir a imagem que os museus representam para a população, como isso influencia na escolha de visitação, o acesso aos museus (acesso econômico e social – sentir-se à vontade dentro dele). O porquê das pessoas visitarem os museus e se elas se sentem à vontade neles. Se encaram tais instituições como de memória morta ou viva, ou seja, se os museus para elas são formas dinâmicas e lúdicas de aprender ou somente locais para recolher informações do passado, sem relação alguma com suas vidas.
Embora o conceito atual de museu, dado pelo ICON, seja amplo e inclusivo, estreitas e pouco acolhedoras ainda são nossas instituições. Muitos serão os esforços de transformação dessa realidade por parte dos profissionais comprometidos. Mas os campos da educação libertadora e da comunicação comunitária certamente ajudarão nessa tarefa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Educação e Museologia Social
ARAUJO, Marcelo & BRUNO, Cristina. A memória do pensamento contemporâneo. Documentos e Depoimentos. Comité Brasileiro do ICOM, 1995.
BAUDRILLARD, Jean. O Sistema dos Objetos. Ed. Perspectiva. Col. Debates Semiologia, 1968.
CARVALHO, Ione. Museus Didáticos Comunitários, s/d.
CHAGAS, Mário de Souza. Museália. JC Editora, 1996.
CHAGAS, Mário de Souza. Um novo (velho) conceito de museu. In: Cadernos de museologia. Lisboa, n.º 02, ULHT, 1993
FERNANDEZ, Luis Alonso. Museologia Introdución a la teoria y práctica del museo. Fundamentos Maior, 1993.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Ed. Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo Educação e mudança. Ed. Paz e Terra, 1997
FREIRE, Paulo Extensão ou comunicação. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 18ª ed. 1987.
FREIRE, Paulo Pedagogia da Esperança. Ed. Paz e Terra, 1997.
FREIRE, Paulo - Pedagogia do Oprimido. Ed. Paz e Terra, 1990.
LIMA, Francisco Pedroso de. A Evolução entre as declarações de Santiago e de Caracas. In: Cadernos de Museologia. Centro de Estudo de Sócio- Museologia. ISMAG/ ULHT. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. n.º 1- 1993
MAGALHÃES, Aloísio. E Triunfo? A questão dos bens culturais no Brasil. Editora Nova Fronteira. Fundação Nacional Pró Memória. Rio de Janeiro. 1985.
MEDEIRO CONSTANCIA, João Paulo. A evolução de conceitos entre as declarações de Santiago e de Caracas. In: Cadernos de Museologia. Centro de Estudo de Sociomuseologia. ISMAG/ ULHT. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. 1- 1993.
MENEZES, Luís. A Evolução de conceitos entre as declarações de Santiago e de Caracas. In: Cadernos de Museologia. Centro de Estudo de Sócio- Museologia. ISMAG/ ULHT. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. 1- 1993.
MOUTINHO, MÁRIO C. Museus e Sociedade. Cadernos de Património, 1989.
RUSSIO, Waldisa. O desafio museológico. Metodologia da museologia, s/d.
SANTOS, M.ª Célia Teixeira Moura. Algumas considerações sobre museologia. Texto extraído da dissertação de mestrado: “ O museu do Instituto de Pré-história: Um museu a Serviço de Pesquisa científica.” UFBa, s/d.
SANTOS, M.ª Célia Teixeira Moura. Repensando a Ação Cultural e Educativa dos Museus. Universidade Federal da Bahia Edições, 1990.
SOLA, Tomislav. Contribuição para uma possível definição de museologia, s/d.
SOLA, Tomislav. Identidade - Reflexões sobre um problemas crucial para os museus. In Cadernos museológicos n.º 01, 1989.
VARINE, Hugues de. O tempo social. Livraria Eça Editora, 1987
2. Comunicação
ALVES, Luis Roberto. Educação, cultura e cidadania: comunicações da periferia. Revista Comunicação & Educação. São Paulo: Ed. Moderna / ECA-USP, n. 15. p.35-44, mai./ago. 1999.
BARBALET, J. M. A cidadania. Lisboa: Estampa, 1989.
BARROS, Laan Mendes de. Comunicação e educação numa perspectiva plural e dialética. Nexos – Revista de Estudos de Educação e Comunicação. São Paulo: Univ. Anhembi-Morumbi, p.19-38, 2o. sem. 1997.
CATALÁN B., Carlos. Medios de comunicación y participación: el caso de Chile. In: Participación social en los medios masivos?: canales regionales y sociedades urbanas. Memórias: Foro Internacional. Bogotá: Centro Cultural Minuto de Dios, nov. 1998. p. 41-57.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Sujeito, comunicação e cultura. Revista Comunicação & Educação. São Paulo: Moderna / ECA-USP, n. 15, maio/ago. 1999. Entrevista concedia a Roseli Fígaro e Maria Aparecida Baccega.
MORETTI, Sergio L. Amaral. A escola e o desafio da modernidade. Revista ESPM. São Paulo: Referência, v. 6, jan./fev. 1999.
PERUZZO, Cicilia M. K. Comunicação nos movimentos populares: a participação na construção da cidadania. Petrópolis: Vozes, 1998a.
___________________. Mídia comunitária. Comunicação & Sociedade. São Bernardo do Campo: Umesp, n. 30, p. 141-156, 2o. sem. 1998.
|
|
|