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| Chuva de Verão |
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Estava um dia bonito. Parei na calçada, no meio de uma pequena multidão aguardando o sinal de trânsito fechar para atravessar a Avenida Conde da Boa Vista. Inesperadamente o céu nublou-se, o vento soprou e começou a chuviscar. A luz vermelha acendeu, paralisando os carros e os ônibus. Iluminou-se o sinal verde, uma campainha estridulou, dando livre trânsito aos pedestres. A multidão impaciente moveu-se, apressada, atravessando a avenida, atropelando-se com os que vinham do outro lado. Bem no centro, onde os marcos dividem a mão e a contramão, encontrei Anelice. Ela vinha de cabeça baixa, defendendo o rosto dos chuviscos. Parei-a segurando-lhe os ombros.
- Lucindo! – Gritou ela. Viera para o Recife, três ou quatro anos antes de mim. Era, então, linda. Agora eu olhava o seu rosto bem de frente. Ela sorria. Mas o seu rosto já retinha a marca dos anos. Contudo eu disse: -A mesma Anelice – o seu rosto estava a dois palmos do meu. Os olhos brilhavam inteligentes como antigamente.
-Até que enfim! – exclamou – Quem me deu notícias
de você? Sei lá. Disseram que você ia bem... Possivelmente não a amasse. Mas ela era linda, tinha um brilho fascinante nos olhos e quando andava, esguia e leve, parecia uma corça. Talvez não a amasse, era verdade, mas andava bem próximo disso.
- Nem tanto assim. Vive-se. E você o que faz? – Soltei-lhe
os braços – Casou-se? O sinal abriu para os veículos. O vento soprou mais forte e a chuva aumentou. Anelice começou a rir, porque estava se molhando e ela não podia correr, com o sinal fechado para nós e os carros passando velozes nas duas mãos, espadanando água. Ela não tinha mais a mesma mocidade, mas entre o passado e o agora havia os cigarros dourados. A frustração do que poderia ter sido e não foi. E ela, agora, uma linda e jovem senhora largada do marido...
- Você precisa reconstituir a vida. E... e... conte comigo... O vento aumentou, a chuva engrossou.Gente corria nas calçadas, abrigando-se nas marquises.
- Agora você precisa de alguém. Recomeçar os estudos. O sinal vermelho novamente deteve os carros e ônibus. Abriu o sinal verde para os pedestres. O vento soprou tão forte que Anelice teve de prender a saia com as mãos e a chuva engrossou os pingos ainda mais. A multidão atravessando a rua correndo, atropelando-se. Bateram em Anelice, que também correu, os cabelos e o vestido molhados. Eu sentia também a chuva pesando nos cabelos e a camisa molhada na abertura do peito. Ainda quis detê-la. - Anelice! A campainha silenciou e antes que os carros se precipitassem, corri. Do outro lado, parei. Não mais vi Anelice que se perdeu na multidão. Então, invadiu-me um sentimento de vazio. Morávamos na mesma cidade e há cerca de dez anos não nos víamos. Como novamente encontrar Anelice? E a chuva que tão repentinamente tinha caído, subitamente também cessara, se fora numa última rajada de vento. A chuva e o vento que trouxeram e levaram Anelice.
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