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das Letras Por Lourival Holanda lourivalholanda@yahoo.com.br |
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| Notas Natal
Estamos sob a pressão do presente, do imediato. No entanto, há pouco tempo, ainda o período que precedia o Natal chamava-se Advento (o que deve vir) : preparava-se uma espera. A velocidade vertiginosa das mudanças, varreu a expectação; ficou só o espetáculo do Natal. O Cristo, convidado em função qual se fazia a festa, fica esquecido no barulho das preparações. Um aniversário com a casa cheia, os convivas invadindo todos os espaços, expondo modas endomingadas – que ninguém compromete com abraços ou amassos muito fortes; os contatos são de convenção; os beijos, os apertos de mão, desses sociais que apenas afloram a superfície do outro. No entanto, Natal terminava com a Epifania – quando algo se manifesta, uma presença perturba o ritmo do mundo e o acorda da letargia com que o cotidiano ameaça o verdor da vida. O movimento frenético do ano leva cada qual a se proteger; e findamos mais individuais e cansados no final do ano. E vem a festa, como compensação. Mas, quem, de fato encontramos? Quem é ainda para nós um encontro epifánico – em encontrão, a partir do qual renasce em nós a vida, quem? Um encontro assim padece de longa espera; travessia de deserto, com os Reis Magos míticos e elucidadores. (Aliás, o Natal já foi festejados no dia 6 de Janeiro, na festa da Epifania). Não digo há que um excesso de luz na feeria das festas, das praças que a Prefeitura enfeita para o Natal. O público se sente mais convidado ainda, nesse tempo de luz. E, no entanto, cada um carece também de certa penumbra, no espaço interior, que facilite o encontro consigo mesmo. Essa, talvez seja uma dimensão em desaparecimento, no mundo contemporâneo – e não é menos importante que o desaparecimento do mico-leão-dourado. Porque era uma das dimensões que nos definiam. Do Homo Sapiens ao Homo Quaerens: aquele que busca, aquele que deseja algo para além de si mesmo; o que deseja o futuro. Mas o futuro perdeu a credibilidade. Basta ver esse Natal com o frio desencantamento de Copenhagen; ali, o lugar de um medo – traduzido em indiferença – abortou o compromisso real com o futuro. É simbólico demais que isso se passe no Natal. Sinal dos tempos, desses tristes tempos – quando já não pensamos com o olho nas gerações futuras, porque as negociatas fazem pender para o lucro imediato os interesses reais. Na raiz do Natal sempre houve um desejo de renovação. (Antes, essa renovação ia além da do guarda-roupa...). Há quem diga Natal vindo da novidade, na quebra do cotidiano com o anúncio do novo – a novella, desde a Idade Média. Outra origem possível: o natalis dies – a palavra teria ido se transformando e reduzindo até a forma atual: Natal. Com menos ou mais fantasia etimológica, há quem veja a origem na palavra do gaulês Noio Hel – novo sol. Sempre esse apoio na renovação efetiva. As três religiões ditas do Livro (Judaismo, Islamismo, Cristianismo) sempre celebraram o momento inaugural de um silêncio. Carregaram a marca de um deserto – com o que há de fecundo nessa espera. O poeta Carlos Pena, filho amoroso dessa Recife mais madrasta que mãe de seus melhores poetas, em dado momento anuncia sinal desse silêncio: Importa menos a origem de Papai Noel, se seu mito agregou alegria ao longo de tantas infâncias. São Nicolau, de origem turca, se difundiu, correu mundo, atravessou os trópicos. Como o Orkut: à medida que avança seu efeito, perde-se seu “começo” – quem lembra daquele rapaz que criou a rede que tomou seu nome ... e despersonalizou o dono? Agora famoso e anônimo? Ele, Orkut, esteve em São Paulo. Porque lembro isso? Primeiro, porque há uma coincidência engraçada: ambos são turcos; segundo, o Cristo do Natal, sobretudo nesses tempos nossos, de pessoa, passou a instituição, de instituição a mito, e no mito desfez-se da força de presença real. Natal é hoje uma emoção epidérmica. Apenas. A beleza das praças iluminadas talvez nos comova ainda. Mas, o que nos comove difere daquilo que nos move. Se o Natal fosse, de fato, renovação de um amor mobilizante, isso seria mesmo epifânico. Encontro alguém que me faz recarregar as reservas de afeto: eis um natal. O que há de cristão nisso? Tudo o que nos retira da sensação mediana do viver, ah, já vale. Tudo o que é busca da alegria tônica do viver, vale ser celebrado. Uma forma de o natal ser lembrado. Se o Natal, de fato, for ainda a renovação do melhor em nós, ah, então nem tudo está perdido. Se houver um espírito de Natal, confundido com a concessão fácil de rede e rebanho, esse espírito não deveria dispensar a atenção. Às vezes na noite, em boîte ou missa de meia noite, uma presença passa – como uma aurora boreal, surpreendente e natural. Mas nossa desatenção perde, no entanto, o que seria um novo norteio de vida. Um natal, todo possível, virtual, ali. Aquela seria uma hora-natal. Hora de renascimento da alegria num encontro. Como poderia ser ímpio que Deus tomasse a forma de um amor, se o Amor tomou a de um Deus? Todo o que faz nascer em nós amor é divino. Mas, pena: no mais das vezes, o excesso de solicitações aborta em nós a plenitude de um encontro real. O que fica, num Natal esvaziado de seu sentido profundo é essa insatisfação que nenhuma festa supre. E quando já nem mais o desejo do poeta Bandeira basta, Pasárgada vai ser revisitada pelo poeta contemporâneo – Hagner Hyngner – como desejo de outra coisa, outro lugar. Talvez na secreta esperança de que, lá, ao menos, algo de novo nasça – e plenifique e cumpra a espera. Ouçamos o poeta:
Vou-me embora pra... só Deus sabe onde O poeta atual, ainda que muito moço, parece envelhecer de desesperança, mas salta adiante levado pela espera. Não saber aonde vai, não saber o que vai encontrar, tudo isso é um risco. Mas o novo só se dá sob essa condição. A conformação é o mofo social; a poesia, seu antídoto. Por isso, ele prossegue: Tem prostitutas bonitas O poeta pergunta se há Deus – mas, e se Deus mesmo já começar a se desenhar nessa forma interrogante? |
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