Os Natais da Minha Infância
A luz da frágil chaminé movida a gás não era suficiente para iluminar a casa. Os fumacentos alcoviteiros bruxuleavam na mesa da sala e nos tamboretes da cozinha. O altar, abaixo da imagem de Cristo, recendia perfumes de bogaris, rosas e açucenas. O sino da minha aldeia dependia dos movimentos do chocalho da vaca Rosa-branca.
A oração do terço regia-se pela voz suave da minha mãe recitando a Salve Rainha, o Pai Nosso e a Ave-Maria, respondidos em coro pelos demais familiares. A ladainha cantada por minhas irmãs entoava-se no imenso da escuridão dos campos. As árvores de natal eram muitas, todas aquelas florescentes no mês de dezembro: ipês roxos e amarelos, canafístulas, acácias, mulungus...
Não tinham os enfeites reluzentes dos aljofres, exuberavam no colorido dos passarinhos nas cantatas do meio-dia. A cuitezeira, carregada de cabaças, exibia a ornamentação espontânea. Manjedouras proliferavam nos casebres de taipa dos moradores do Zumbi. Crianças sambudas desfilavam barrigas-d’água pelas capoeiras armando arapucas e treinando nas baladeiras o tiro certeiro nas rolinhas, anuns e bem-te-vis. Nos Natais da minha infância não havia a missa do galo, cantada em coro nas igrejas e catedrais.
Em compensação, tínhamos o canto dos “gigantes negros” nos desafios empoleirados dos terreiros da vizinhança. O tilintar das taças de champanhe dava lugar ao ruído dos primeiros copos de leite, espumantes, advindos das tetas pejadas da vaca Mariola. O consumismo da cidade grande não repercutia naquele meio.
A roupa nova, confeccionada por minha irmã, resultava do foro pago pelos arrendatários de nossas fertilíssimas terras agricultáveis. A mesa grande da sala circundava-se por bancos de cedro. Do famoso cozido natalino participavam moradores e vizinhos de propriedades. O garrote abatido na véspera fornecia a carne fresca a muitos pobres que só comiam esse alimento nas festas do Natal. Meu pai vendia o produto do abate por preço simbólico para os camponeses habitantes das redondezas.
Nos Natais da minha infância não havia luz elétrica. A nossa água de cacimba resfriava-se, na quartinha da janela, ao embalo da brisa serrana. As canções em voga na cidade grande eram cantadas por pessoas amigas em férias na fazenda. Os balanços das redes, roncando nos armadores, queriam fazer um acompanhamento sonoro. Perdia-se no espaço pelo desentoar dos sons.
A felicidade não tinha medida. O manto da simplicidade nos agasalhava nas corridas emparelhadas das éguas esquipadoras.
O aboio, nossa canção gutural diária, condicionava o gado para o retorno ao curral em cada fim de tarde.O respeito ao Deus Menino habitava os corações sentimentais e fervorosos de todas as pessoas da região.
As orações encerravam-se com gestos genuflexos dos filhos pedindo bênção aos pais e aos irmãos mais velhos. O silêncio da noite descia no manto negro da escuridão e acalentava a todos para um sono reparador. Quando então, somente a voz dos grilos zínia aos nossos ouvidos nas saudosas noites de Natal da minha infância.
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