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Cassandra
Poema dramático de Moisés Neto
(dedicado a Conceição Camarotti e Simone Figueiredo)
Ai de ti, cidade
maldita! Tua hora se anuncia:
Virá como uma onda enorme:
Uma guerra cruel...
Que a morrinha caia no teu espírito de cabra!
O presente é uma armadilha...
Com fome ardente tudo tu consomes, cadela voraz!
Tudo em mim está terrivelmente destruído...
Mas... cuidado!
Escuta minhas previsões! Não rias...
As serpentes lamberam os meus ouvidos...
ó filho da
aurora, ó portador da manhã, vem em meu auxílio!
ó guardião noturno do templo faça com que acreditem
no grande incêndio.
Tu ris....
A cidade será tomada! Será inútil o que te digo?
Tu!
Não acreditas?
Tu tratas as coisas baixas como se valessem muito:
Nada vale mais do que o preço que nós próprios
damos!
Hás de chorar!
Bem sei que são
inúteis os meus clamores
Sei bem da inutilidade de todos os meios
Eu sou como estrela que saiu da própria esfera...
Que importa que eu te avise sobre o fim das promessas?
Das alianças..
Sobre o horror dos infantes trucidados.
Devíamos
fechar os portões... viver de nós mesmos!
Não me escutas?
O sangue ferverá até a loucura!
O amor porá tudo a perder... Nos fará chorar oceanos,
Viver no fogo,
Comer pedras...
Tu!
Geração de víboras,
Hás de lembrar de mim!
Quando no inferno de dores comeres fezes!
Quando desejares estar tão embaixo da terra quanto em cima
Eu te entreguei os segredos da natureza e tu... zombaste... de mim?!
Me trocaste de maneira tão miserável na mais rude pressa!
Que destino maligno
este que sufoca assim nossas despedidas.
Meu coração parece estar sendo arrancado pela raiz!
Não! Não
haverá orgulhosas cicatrizes que mereçam risos ou admiração
Nem restarão ídolos para adoradores idiotas como tu és!
Geração de víboras!
Tens menos cérebro que cera no ouvido.
Pelo inferno e seus
tormentos: não direi mais nada!
Ainda ousas me agredir?
Vida! Como pudeste me pagar tão mal?
Meu coração
flamejante no meio dessa devassidão
Ele ainda tem a intenção de manter a tola promessa.
Mas o veneno da
vingança se aproxima...
E eu pressinto os
teus olhos pálidos, ó geração desgraçada
que não me atendeste!
E me insultaste!
Já vislumbro as tuas feridas sangrando.
No estupor.
Na loucura
No desespero dos grosseiros e aturdidos...
Malvados, tremei!
Adeus.
Já se aproxima a feia noite: assim como o sol no ocaso a vida
se abrevia.
Esta cidade terá medo de si mesma!
Nenhum espaço
separará nosso ódio.
Nossas crianças parecerão milhões de peixinhos
mortos sobre este rio poluído.
Chorai,
Geração de víboras!
Não por mim, que sou ninguém...
Mas por teus ossos.
A peste vem aí...
Não tarda!
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