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Sirigi
S - No rio Siriji
Se vê, nas cachoeiras,
O canto se lavando
Nas mãos das lavadeiras.
O canto, roupa
branca,
Quarando ao sol festivo,
E, como o sol , aceso
Dentro do dia, vivo.
O canto que se
canta
Para limpar o tempo,
Como quem assovia
Para chamar o vento.
Pois quando a água
limpa
Do Siriji é pouca,
Na pedra, em vez da água,
O canto lava a roupa.
I - Quem desce
o Siriji
Tem sempre a impressão
De ver nuvens de garças
Pousadas no verão.
De garças
que são nuvens,
Embora que pousadas;
Ou nuvens quando abrissem
As suas brancas asas,
Mas asas, que lavadas,
Tivessem bem maior
O brilho, em pleno dia,
Abrindo um guarda-sol.
Tão branco
que, de perto,
Desfaz toda a impressão:
Mostrando roupas limpas
Quaradas no verão.
R - Contrário
ao Carimã
Que é rio cantador,
O Siriji não canta,
É só declamador.
Não tem
um canto próprio
Nas suas cachoeiras,
Porém declama o canto
Da voz das lavadeiras.
E, rio não
poeta,
Sabe um canto menor
Que aprende todo dia
Para cantar de cor.
Pois mesmo quando
é noite
Seu canto não se esgota,
E dizem ser o canto
Das lavadeiras mortas.
I - Tem vez que
o Siriji
Por dentro de ilumina:
Quando despejam nele
A calda das usinas.
A calda que ele
veste
Como se fosse um terno,
Ou se vestisse o barro
Que os rios são no inverno.
De roupas encardidas
Em vez das de nascença ,
O Siriji acende
Um brilho de doença.;
Pois veste no seu
dentro
A roupa de quem dorme,
E o brilho que se acende
Nos olhos de quem morre.
J - Durante todo
o tempo
Que o Siriji tem calda,
Não se pesca mais nele,
Se caça de espingarda.
Não caça
de mergulho
Como se faz no poço,
Mas de animais, de pássaros,
Embora sem cachorro.
Que enquanto o
Siriji
Por dentro se embriaga,
Até seus próprios peixes
Respiram fora d’água.
E as lavadeiras
órfãs
De pais e de maridos,
Não lavam roupas brancas
Mas tingem seus vestidos.
I - Depois que
a calda desce
O Siriji é um limo
E nele só se lavam
Os bichos e os meninos.
Pois quando em
sua calda
O Siriji se esconde,
As lavadeiras cantam
Para lavar os homens:
Carreiros, cambiteiros,
Que vêm da bagaceira,
Se lavam entre os corpos
Das próprias lavadeiras.
E o Siriji se estende
Quarando ao sol, enquanto
Espera as lavadeiras
De volta com seu canto.
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