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| O rio de minha aldeia |
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Num tempo distante, uns animais selvagens, as capivaras, passeavam pelas suas margens. Daí seu nome: Capibaribe, rio das capivaras. Então as águas eram transparentes, as moças se banhavam, a água pouco escondendo a fragilidade e a brancura dos corpos, com um não pudor que até espantara um viajante, o Tollenare. E nem faz tanto tempo, os golfinhos subiam do mar até as pontes, e as pessoas os olhavam fascinadas, eles saltando na água, como querendo chamar a atenção. Nas margens do Capibaribe os ingás abrigavam os namoros inocentes das sinhazinhas e estudantes, todos em férias de verão no distante arrabalde do Poço da Panela, que Carneiro Vilella descreveu. Um poeta, Olegário Mariano, cantava o sol se pondo na outra margem, lembrava sua mãe, escondendo os negros cativos nas barcaças do ancoradouro atrás da casa e o canto das lavadeiras batendo as roupas nas pedras esbranquiçadas das margens. As capivaras se foram, a poluição afastou os banhistas e seus primeiros alumbramentos, Tollenare teria lamentado o atual negror das águas. A casa de Olegário só existe numa antiga aquarela e as ingazeiras que ainda resistem mergulham suas raízes num limo escuro e podre, de onde os homens escuros de que falou Josué, tiram não do que viver mas apenas agüentar, como diria aquele outro poeta. Assim o Capibaribe. Mas de onde, então, o amor que tenho por ele, o carinho com que me debruço para olhar as águas lá embaixo, passando velozes, lembrando que não se atravessa o mesmo rio duas vezes? Então recordo uma manhã, inda muito cedo, em que, com um homem amado, olhamos o vapor que subia do rio e um peixe que pulava vez em quando, saudando o sol que chegava. Então recordo os dias de cheia e de como seria bonito as ilhas de baronesas azuis, passando velozes na água barrenta, não fora a tristeza da devastação. Então recordo a adolescente, e o parapeito do cais que testemunhou as lágrimas do amor perdido. E recordo: um inesquecível banho por entre as pedras e o perfume verde e fresco que tinham as águas do Capibaribe, correndo ao lado da mata, pouco antes que ele chegasse ao Recife. E entendo por que
o Capibaribe passa no meu quintal e no meu coração.
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