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LAVRADOR E O TEMPLO Autora: Lourdes Nicácio Editora: Novo Horizonte |
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O lavrador e o templo Fátima Quintas Foi em Belém de São Francisco que Lourdes Nicácio conheceu as suas primeiras representações de mundo. Ali fincou o ponto de origem, marca indelével que a inscreve no próprio nome, atavismo impregnado à identidade. Nome que nomeia, que distingue, que desenha o esboço do eu, que epigrafa na pedra, ao modo dos desenhos rupestres, a insígnia da continuidade. A paisagem de uma terra sofrida diante da luta pela sobrevivência, a trazer a incerteza do amanhã para um povo à espera de novos horizontes, soma-se a sentimentos lúdicos, bucólicos, que a poeta transforma em imagens arrancadas das entranhas do imo. Dessa lembrança brota a cadeia dos espelhos em tempos triádicos: passado, presente e futuro. Tudo começou na terra, no chão por vezes seco, por vezes umedecido e cálido, nas miragens do sol, nos fantasmas que a infância se encarrega de elaborar com tanta veemência que jamais deles nos afastamos. Terra amada, hoje varrida pelas águas. Chão que Lourdes pisou e por ele deixou-se invadir, corpo e alma. E a sua vida irrompe de uma história acumulada, de antigas experiências afetivas, de fachos retrospectivos a desenredar o imaginário — carne e sangue de caminhos já percorridos. Como diz Gabriel García Márquez: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. Os tempos de Lourdes misturam-se ao vivido e ao vivente. O grito aguerrido de esperança confere-lhe o tálamo da obstinação. Aproximar-se dos longes corresponde a reconstituir os pedaços da sua biografia. Por essa janela transcendente, enxerga a harmonia ontológica. Na Fazenda Canabrava, a menina corria com os olhos arregalados, a descobrir cada cantinho, como se o cosmos dependesse das suas pegadas cravadas nas veredas conhecidas e desconhecidas daquela região que simbolizava o tamanho do universo — imenso, sem limites de fronteiras. Entre árvores, ramagens, mangueiras extraiu o sumo da natureza, matriz de uma narrativa que jamais se permitiu dragar pelo esquecimento. Como olvidar o que nos pertence? Lembranças coaguladas na memória sussurram segredos inaudíveis. A poesia de Lourdes tem algo de transbordamento, de ruídos do passado, de refrões de nostalgia, como se lá atrás estivesse plantada a árvore da sabedoria. Ninguém mais do que ela sabe que há na letra lavrada a possibilidade de perenização, soma de ecos de horas outras, de instantes outros, de invocações outras. “Queres um guarda-sol?/Um guarda-sol/ acolherá do vento/ o resto das madrugadas/ que te afagarão/ a fronte prateada,/ tesouro sem guardiões,/ fios de luz/ das estradas”. E o vento sempre a soprar sobre o lirismo do verso: não um vento que dissipa os fragmentos da alma, mas o vento que une, que semeia lugares, um vento capaz de embaçar os temores de cada um. Sopro de alguma arribação: “Os ventos arrastavam/ o silêncio verde da mata,/restauravam-me madrugadas.” Ah! vento bendito, soberano em trazer miragens enlouquecedoras! Nada passou despercebido para esta poeta encantatória, cuja luz interior explode vinda de um túnel de reviviscências; sim, de fortes introspecções nascidas na região banhada pelo Rio São Francisco. Rio da infância, de pescadores, remeiros, lavadeiras. Águas abençoadas, a confortar sonhos e a banhar pulsões nunca reveladas. Pactos que se ordenam na estrutura psicológica de quem ouviu canções ao luar e acenou para crepúsculos desenhados no firmamento. A imagética da poeta exalta três eixos fundamentais: o silêncio, a solidão e a saudade. Ícones que se revelam para muito além do palpável, rimados nos seus ss, no sentimento comum e no poder de transfigurar o que se vê no que se sente. A poéisis garante o fazer alicerçado em um querer que corre na direção do rio cantado e decantado em voz baixa: “Observo o velho rio/ em berço de luz da tarde/ profundo/ silencioso”. O seu silêncio se traduz não somente na palavra escrita, mas também nas entrelinhas do que almeja dizer. Por caminhos de abstração, a sua escrita tange as muralhas da solidão — muralhas invisíveis que se escondem por trás do arbusto, do vento, das carrancas tão típicas do Rio São Francisco, quando a solidão brota do abandono da região, da incapacidade de ser vista com olhos generosos, da imensa vontade de ir adiante, ainda que entre ilusões individuais. Se o silêncio e a solidão se irmanam, há uma tonalidade típica de saudade, a se espraiar pela ternura que em Lourdes nunca arrefeceu. Sim, nessa menina de Belém de São Francisco habita a delicadeza dos mansos. No riso, na procura de si, nos poemas ressignificados apreende-se o exercício da ascese. “Aprendi a ler/ escrituras gravadas/ por dentro das pedras”. Quem poderia, oh! poeta Lourdes, descer a criptas tão profundas senão o seu olhar mítico, de gente que ama visões mágicas, e que acredita quase messianicamente no retorno dos instantes perdidos! Perdidos? Qual o quê? O que faria você sem a sua história, sem esses registros que a inoculam no mundo, à semelhança da borboleta que adeja a liberdade do rio manso? Proust reafirma: “Muitas vezes, no decurso da existência, a realidade me decepcionara porque, ao vislumbrá-la, minha imaginação, meu único órgão para sentir a beleza, não se lhe podia aplicar, devido à lei inevitável em virtude da qual só é possível imaginar-se o ausente”. É essa imaginação, fruto de uma criatividade rica de expressões do real, que a poeta traz para si mediante a sólida aliança com os ascendentes — cicatrizes e alegorias misturadas num só círculo. O tempo só serve quando marca, quando mostra os seus sinais ao longo dos anos, quando cunha a superfície com vestígios epifânicos, ele, sempre uma referência na pele e no espírito. Na poesia essas marcas alcançam o seu ápice. Celebra-se o ritual do símbolo e da metáfora. O silêncio acompanha os sussurros de Lourdes Nicácio. Silêncio que fala, que a eleva ao êxtase da palavra, que a fortalece nos momentos de evocação. “Lembras-te daquela noite?/ Em quantos portos/ ancoramos o nosso silêncio!” Não há nada mais reconfortante que ancorar em algum porto. Nele se recebe a benção do acolhimento, a mão estendida do afago, a certeza da proteção. Buscar o porto é salvar-se. Libertar-se. Gritar no mais alto tom a palavra catártica. A sua poesia, cara amiga, corresponde a esse porto almejado e alcançado por entre a voz do silêncio, da solidão e da saudade. Um porto que tem o nome de Belém de São Francisco e que dá alento aos seus belos e eternizantes poemas.
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