UM POUCO ANTES DA CHUVA
Autor: Lúcio Ferreira
Editora: Novo Horizonte
   
             
               
 
               
 

Um pouco antes da chuva


Lourdes Sarmento

O olhar artístico que a poesia sugere ao leitor com o objetivo de convidá-lo para itinerários inovadores, numa conversa interior e individual, trata-se de um chamado sem sons estridentes. É como o ritmo dos pássaros, do mar, do rio que deságua nas pedras e se faz silêncio.

O poeta é o ser iluminado que transforma o absurdo, proclama o belo e possibilita a existência da linguagem, ingressando num reino do qual emana o grito dos homens, a natureza que nos circunda, o exercício espiritual de uma doação que transcende em relação à sua obra.

Em meio a um grande número de livros de poesias, nos quais os autores tentam uma comunicação com o mundo exterior, surgiu nesses últimos anos uma figura humana gigante na altura, com mãos grandes e olhar firme, segurando poemas que após uma leve passada de vista, impressionou-me sobretudo.
Assim, conheci o poeta Lúcio Ferreira com uma poesia tão gigante como o espaço físico que ocupa.
Trata-se de uma voz poética das mais bonitas, uma voz que nasce de uma afirmação atemporal:
“Penetro a forma/ conservo/ o teto/ gero meu jeito/ fujo das redes das fronteiras/ salto no primeiro orvalho”...”E no espaço/ de meus sólidos/ meus verões/ construo/ trajo formigas/ cigarras visto./ E sou.” Na sua fome e sede de gerar o poema; no seu cansaço, na poeira da estrada, suas escavações em territórios desconhecidos são instrumentos de realimentação, de reforçar uma ordem social, com manifestações de vida: “então rebenta/ dos ramos maduros/ um mundo/ de renascimentos.”

Renasce o poeta, “respira na espera e adormece.” Segundo Schopenhauer toda ação humana é produto de dois fatores: o caráter individual e o motivo. Isso, todavia, não significa que ela seja um meio termo, localizado entre o motivo e o caráter; antes, ela satisfaz plenamente tanto um como outro, fundamentando-se, em toda a sua possibilidade, sobre ambos ao mesmo tempo; porque, convenhamos, é necessário que a causa ativa possa agir sobre tal caráter, e que esse caráter seja determinado por aquela causa anunciada.”

Consciente da Verdade e das Aparências, Lúcio Ferreira produto do caráter individual e do motivo, citados nesta apresentação, nos confirma tal observação, num dos seus poemas “Enganas-te se apenas confias/ nas vitrines/ e nos semblantes./ As aparências gaguejam/ nas invenções dos monólogos/ enquanto se retorcem/ as almas eletrônicas/ no seu mundo de botões./ Estarás sempre enganado/ se a sede não domares/ nem prenderes/ o rufião.”
Eis Lúcio Ferreira domando as palavras “porque o verdadeiro mar/ é mais profundo/ em teus abismos.”

Revisitar a poesia deste pernambucano é revisitar o seu universo quase pleno, o espaço de seus vôos, seu estado cósmico, sua alma tecida de dor e de busca, de sonhos e desencantos.

É o artista que procura lapidar a sua própria história, transformar a paisagem do nosso Tempo em fragmentos de sóis, reencontrar-se, partir ao meio cada pedaço de vida. Ofegante, chegar ao topo do ventre da terra e com as suas mãos traçar o mapa poético dos nossos abismos.

 
               
  “Abismo não tem tempo
lá ele está
grande
vazio
sem balaústre
rindo
tardio aviso
ar escasso
trancado glote”...
   
  É o homem manso, é o operário incansável, é uma voz que rompe o presente e finca um estandarte de brilho nos caminhos e entre as sementes:
   
  “Em meus olhos
o futuro se planta.
miro o distante
à frente exposto
e me envolvo em transparências.

Bisa o olhar a estrada:
a das raízes
das hiléias;
a das sementes
das palmeiras ”

     

Por todo lado há regras e ao homem se exigem obediências às normas de conduta, às leis, todavia as leis do coração são tatuadas na alma do poeta, nas metáforas e na sonoridade das palavras. A liberdade do homem e sua conduta estão no poema.

 

* Lourdes Sarmento é poeta, escritora, pesquisadora, biógrafa e jornalista. Tem 19 livros publicados em português, inglês e francês e participa de 63 Antologias nacionais e internacionais. Membro de várias Academias de Letras é poeta premiada, além de inúmeras homenagens em vários estados do Brasil. Tem trabalhos literários e jornalísticos apresentados em Washington e Miami (Estados Unidos), Cidade do México, Lima(Peru), Lisboa(Portugal).