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Lutar é uma maneira de viver. Despertar, tendo à frente uma série de desafios, nos faz encarar o mundo com um objetivo.
Os fracos se perdem no meio do caminho. Só os fortes lutam.
Existem momentos na vida nos quais gostaria de alcançar uma cidade imaginária lugar onde encontrasse a paz entre os seres humanos, harmonia e compreensão.
Esses lugares não existem, apenas podemos imaginá-los e vivê-los dentro das limitações que a vida nos oferece. Como diz Huxley: Para viver um instante é necessário morrer para todos os outros instantes. Temos que colocar o nosso presente em compartimentos hermeticamente fechados, isolando a maneira de caminhar.”
As coisas nunca foram fáceis para mim, consigo-as com luta, sacrifícios e desafios.
O desafio é a conseqüência do que as pessoas vão me impondo.
Curioso, acredito que as melhores coisas que consegui fazer na vida, foram nada mais do que um desafio àqueles que tentaram me derrubar. De leve, sutilmente ou ostensivamente, enfrento as pessoas que por caminhos ocultos ou visíveis, procuram me prejudicar.
Acho que, no final, vou agradecer àqueles inimigos, às vezes com roupagem de amigos, tudo o que tenho conseguido profissionalmente e, também, interiormente. Cada vez que renasço após a tempestade, estou tão firme quanto o cipreste altivo, à procura do Infinito.
Cada dia amadureço mais, o meu sorriso vai se apagando, mas minha resistência aumenta.
Caminho em muitas ocasiões com vontade de sentar-me à beira da estrada e adormecer em fuga, uma fuga que passa logo e me disponho à caminhada, não sei se ainda será longa ou breve, pouco
importa. Diz Kafka: “De certo ponto em diante, já não há retorno possível: a esse ponto é que é urgente chegar.”
Não há possibilidade de olhar para trás. As pessoas caminham apressadas. É um amontoado de gente, atropelando uns aos outros. No final a confusão é grande. A disputa pelos primeiros lugares; o objetivo de pisar para se sentir superior, a cobiça é tão cega que o próprio conquistador não toma conhecimento das grandes coisas que estão nas suas mãos e é mais infeliz do que aqueles que preferem a planície por ser ela a dimensão da vida.
Só quando nada cobiçamos, só quando nosso olhar se torna pura contemplação é que se abre a alma das coisas à beleza.
O grande pensador alemão, Herman Hesse, descreve muito bem a consciência totalmente pessoal, quando explica: “Quando observo um bosque que eu quero comprar, arrendar, desmatar, hipotecar e onde quero caçar, então não vejo o bosque, mas apenas os aspectos que correspondem ao meu querer, meus planos e preocupações, a minha bolsa. Quando o olhar é despreocupado, só então ele é bosque, é natureza, é vegetação, só então é belo.
O mesmo, cita Hesse, acontece com os seres humanos e seus rostos. Aquele a quem olho com medo, esperança, cobiça, intenções, exigência, não é um ser humano, mas apenas o reflexo turvo do meu desejo.
No momento em que o querer se cala e a contemplação surge, a visão torna-se pura e o ser se abandona, tudo se transforma.”
Que bom quando alguém nos olha sem interesse e sem análises, que bom quando alguém entende que o sol é para todos. Que bom quando somos amados.
Amados ou desamados, vamos brindando aos que perdidos na sua mediocridade, não sabem ver a vitória dos outros.
Não sabem, antes de tudo, verificar que muitas vezes essas vitórias foram o resultado de um trabalho intenso, de horas de dúvidas, de horas sofridas.
De repente, volto-me ao mês de agosto e sinto o mar cantando nas pedras da praia de Calhetas. O produtor Valdir Oliveira e sua equipe faziam a última filmagem do curta que procurava traduzir o mundo interior de cada Poeta ou Prosador. A praia de Calhetas foi escolhida para mim, nas ruínas via sonhos desfeitos, à frente o mar se renovava e ali estava, sem pedir coisa alguma, sem procurar, e Deus em dádiva me escolheu, através do professor Valdir Oliveira.
No meu peito, uma manhã nascia. Aos olhos da poeta Astrid Cabral e Alfredo, seu filho, que viam pela primeira vez uma filmagem, era algo mágico. Era a minha primeira vez e, sobretudo, como personagem do filme.
Não adianta querer colocar pedras no caminho de quem não procura a maldade, de quem vibra com o sucesso dos outros. Continuarei assim. A Lei do Retorno é inevitável.
O mar soluça e gargalha. O mar dentro de mim. A força das águas é a força do Criador.
POEMAS
VIDA I
OLGA SAVARY
A árvore que persigo mato adentro
navega no espinhaço deste tempo.
Mordo seus frutos como se eu mordera
a agreste cor de tua carne roxa
com a fúria de rios pelos joelhos.
Selvagem é o coração da terra
E o meu.
Olga Savary nasceu no Pará e vive no Rio de janeiro
DE POLIFEMO
STELLA LEONARDOS
Ninguém se salva,
ciclope
de teu olho
gigantesco.
Ninguém nos salva
dos golpes
da ciclópica
violência.
Mas como ninguém
se salva
meu odisseu
que te cega.
Mas como Ninguém
me salvo
de tua violência
cega.
Stella Leonardos nasceu no Rio de Janeiro
PÁSSARO DE FOGO
ALICE SPÍNDOLA
Trovão, fogo,
fanfarra
assustam o pássaro,
que pernoita
no alçapão.
Chuva miúda
faz festa
para o pássaro
sair do silêncio.
O pássaro voa
e expande silêncios,
esconde esperança.
Metamorfose
de pássaro de fogo.
Alice Spíndola nasceu em Minas Gerais e vive em Goiás
PAISAGEM
GRAÇA GRAÚNA
Vida
Seca
Pedra
Mote
Paisagem...poeira...sino
Lembra chuva que não vem
Lembra meu amor partindo
Sina
Sal
Solo
Sertão
Graça Graúna nasceu no Rio Grande do Norte vive em Pernambuco
FAUNA EM AGONIA
OU ARARINHA AZUL
MAURÍCIO MOTA
voa arara azul
voa longe e
cada vez
mais distante
do que perto
vai nas nuvens
toma banho
nas nuvens
mergulha na terra
teu timbre
de ocaso
e ressuscita
com a voz
dos homens
Maurício Mota nasceu no Recife- PE
UM PRESENTE POÉTICO
*Lourdes Sarmento
Um presente quase perfeito, é o livro de Cloves Marques intitulado MÁSCARAS EM HAICAI, sobre o qual tenho a satisfação de dar o meu testemunho.
Neste Brasil, com uma produção de livros que já ultrapassa a nossa capacidade de leitor, surge Cloves Marques com força poética, revelando paralelamente a sua capacidade de pesquisador, com o objetivo de nos abrir uma janela; falar do que conseguiu filtrar do mundo visual, nas suas viagens em outros recantos do mundo, nas suas andanças ou no mergulho determinado no reino das palavras, a expressão de Deus nos homens.
Cloves Marques explica na sua Introdução a origem do Haicai e, atravessando o País de Sol Nascente, escreve com segurança a trajetória do Haicai no Brasil e, nos convida para um banquete de versos e imagens de rara beleza que tomam corpo, sentam-se à mesa na qual escrevo e refletem-se nos espelhos dos móveis, tatuando, também, a minha alma .
“Parte da imagem
a máscara devorou,
a outra, não sei.”
Para ler os haicais deste bom poeta que habita no Recife, retiro uma das minhas máscaras, muitas vezes necessárias e, prefiro encarar a “máscara sagaz / desfigurou a criança,/ que não fala mais”
e visualizar de frente, sem calar a voz, diante de uma poesia estruturada nos padrões orientais, mas com o calor do nordeste, num gesto de doação, dentro e fora ao mesmo tempo, do período do carnaval e outros da busca e da espera: “Máscaras expostas,
levitando em oferta.
Só recolhem sonhos”
Na minha leitura, usando máscaras confeccionadas para esconder a angústia do homem moderno, o prazer nas entrelinhas,
o gosto de viver, de tratar seus haicais, de marcar a sua passagem na terra, sabendo
que “Aos olhos abertos,
escolhas. E como folhas,
são frutos incertos.” Eis a missão de Cloves Marques.
Na vida literária todas as descobertas são válidas. A vida por mais hermética que seja, está sujeita a manifestar diante do mundo, a exuberância que nos circunda, a denúncia, o êxtase, a dor, conduzem o poeta a processos mágicos no ato de criar e o ato de criar é um caminho sem volta.
“Da mão para a face
Um caminho desespero,
Máscara disfarce.”
Continuo sem máscaras produzidas, para olhar em azul o livro que Cloves Marques nos oferta, como presente e, nos acena outros sinais de novas produções literárias.
CLOVES MARQUES ESTÁ SENDO HOMENAGEADO NESTE MÊS DE OUTUBRO, NA LIVRAIA CULTURA, DENTRO DO PROJETO CULTURAL DA UBE.
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