Link das Letras
Por Lourival Holanda
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Onde há literatura?


Recentemente, coisa de pouco mais que mês, Recife recebeu uma personalidade no mínimo singular: Ademiro Alves – desde algum tempo conhecido por “Sacolinha”. Ele é coordenador literário em Susano (SP). Acredito ser, por lá, uma função como cabe aqui a uma Heloísa Arcoverde ou um Cristhiano Aguiar, no bom trabalho que fazem na Prefeitura de Recife. A diferença é que os de cá trazem desde cedo uma sólida formação cultural e literária embasando o que fazem. Sacolinha vem de um meio bem mais simples: foi cobrador no Metrô. Não que a origem humilde dê automaticamente a alguém o benefício do mérito. Compreendo e partilho a impaciência de Mário de Andrade contra esse populismo que “usa e abusa da piedade”.

O que quero realçar é a crença de alguém na literatura, nos livros, como fator de movimentação social. Sem, contudo, qualquer idéia de redenção pela cultura literária. O poeta Wandesson Hidayck mostrava certa exasperação por essa perspectiva salvacionista imputada à poesia. Aqui, vale lembrar o retrato cru que Conrad fez do colonizador, em O coração das trevas: Kurtz, o personagem em questão, é um homem fino, musicista, de muita leitura – e de uma crueldade sem limites. Na história, cultura e crueldade nunca se distanciaram muito.

Aliás, o livro de Conrad é publicado no mesmo ano (1902) que o de Euclides da Cunha. O extermínio no Congo Belga vai de par com o nosso, em Canudos. A cultura, quando isola razões, se torna paranóica: a jovem República brasileira de 1897 destrói em nome da Razão, do Progresso. A poética literária impõe menos um modelo; ela deixa abertas as possibilidades – tanto pessoal quanto social. Se perde o espírito crítico, vira doutrina; e aí, corrompe-se na base.

Ademiro Alves, o Sacolinha, é alguém que crê agindo. Ali e aqui encontramos pessoas assim: a literatura é o fermento desse pão de cada dia. Tenho uma admiração cúmplice por quem crê e faz da disseminação literária, uma forma de reagir ao marasmo, ao desencanto – e, também, mas não sobretudo, uma forma de “ascender/subir” na vida. Mais importante que estar vazio no alto da hight society, é estar contente na pequena tarefa diária, onde o suor se soma à satisfação.

Aqui, as experiências se sucedem com sucesso desde já algum tempo. Desde o grupo Nós Pós, passando pelo Alto Zé do Pinho (penso em Léo “das Dores” e seu grupo, lendo e levando literatura e mais música àquele meio). Samarone Lima faz o mesmo, certamente com mais experiência e a mesma fé, nos arredores do Poço da Panela. Daria para mapear a esperança na cidade do Recife a partir desse foco de criação e de reinvenção da vida. Uma geração que faz, dos revezes, força de reinvenção da vida. Como diz Adalto Farias, em Surpresas de não ser preso

Consigo me ver sem você.

Vejo – me triste, fraco, vago.

Todo sem a metade

Completamente sem você.

Consigo viver sem você.

Sobrevivo,

Só breve vivo,

Sub – vivo.

Outra experiência, voltando a São Paulo – e, bem pouco acadêmica – é a de Sérgio Vaz, em Taboão da Serra. Ele vem de uma favela como tantos de nós de meios humildes. E vai trabalhar, incrementar a vida criativa. Como o mundo contemporâneo perdeu parte da superstição de “centro” cultural – central é ali onde alguém cria – Sérgio juntava gente mesmo num bar. Daí até resultar na Cooperifa, foi um passo. É o primeiro passo que tem a beleza de um vôo; o que vem a seguir, é consequencial como o andamento regular de um compasso.

A literatura é realmente um espaço democrático – desde que criativo e democrítico, é um ganho social. A repetição de formas, tanto como os meios uniformes, na Física, são sem energia. Por isso, e embora pareça paradoxal, a necessidade de revisitar a tradição: ela alerta ao risco de uma modernidade desavisada, a refazer gestos gastos, crendo estar inovando. Burrice repetir a tradição por preguiça ou impotência criativa; estupidez repeti-la pela arrogância que vem do desconhecimento.

Prefiro a ousadia dos praticam e incentivam a literatura nos quatro cantos da cidade. Ser “marginal” por vir da periferia – e porque confere uma certa visibilidade que o projeto cultural da Prefeitura do Recife, mal compreendido, parece legitimar, isso pode deixar a suspeição de oportunismo. Os que fazem literatura porque crêem, porque partilham a paixão de dividir a vida, multiplicando-a, não passam por aí. Não escrevem por e para a mídia, mas para dar ao dia-a-dia um toque de tambor, convocando alegria. (Não, necessariamente, holofotes).

Por isso cremos que literatura pode ser uma atividade de auto-alteração criadora. Aqui em Pernambuco, Gabriel Santana, na Rede de Bibliotecas Comunitárias da Região Metropolitana, faz um trabalho considerável. “Para mim, a literatura é o meio e fim para o desenvolvimento das pessoas”, diz Gabriel, esse agente cultural que junta, numa mistura fina, sensibilidade ao social e inteligência criativa.

O lado positivo das comunidades da internet, formadas quase sempre por afinidades, é que podem ser comunidades de inteligência criativa; as outras, tendem a se sentirem seguras na transmissão da memória, do consabido. (Esse, o perigo que espreita as academias, as associações. O consensual não propicia criação, mas repetição). Por isso boto fé no que essa literatura – que se lê, que se escreve – surgindo de qualquer lugar, na internet, nas salas de aula, nos cadernos escolares: um dado texto, lido em hora de transe, pode ser decisiva na direção da vida. Juventude – de criação inventiva, portanto, passível de aparecimento em qualquer idade – pede espaço, como o cinzel pede a pedra. É isso que mantém a seiva de uma cultura. Nas dicções mais variadas, seja a de Sacolinha, seja a de Léo César, a de tantos outros, esse é o espaço de dizer suas cóleras, seus sonhos, suas esperanças. E, num primeiro momento, valendo menos pelo que conseguem que pelo que anunciam, eles vão dando voz aos anseios de um tempo; e vão revertendo, pela densidade das redes, o que poderia ser mera veleidade, em expressão de uma exigência. Vivre autrément: viver de um ou outro modo, mas não deste, de quem se resigna ao real.

O sentimento do mundo mudou; consequentemente, também sua expressão. Essa geração está se ficcionalizando mais. Os jovens escritores criam com uma grande mobilidade. Antes, a rede do alpendre levava, fácil, ao solilóquio; a rede computacional permite permuta. (Verdade que quem diz velocidade não diz necessariamente, valor; especialmente no espaço da criação). Eles se inventam vidas e espaços comuns, com grande liberdade. É seguramente um ganho, contra os guettos anteriores. A razão não dá conta da liberdade que esses tempos abriram. (Espero que Anco Márcio Tenório Vieira veja nessa esperança o contraponto do que ele chama meu lado apocalíptico). O mundo ficou mais vasto que o coração de Drummond? O certo é que alargou nosso desejo. Para dizer com a cubana Omara Portuondo: Yo, para querer/no necesito una razón. Me sobra mucho, mucho corazón.

Uma geração é, forçosamente, um limite temporal. Por isso, em literatura, melhor falar em sensibilidade. Como João Cabral na Geração de 45: ele está nela – mas, com outra sensibilidade quanto à forma poética. Nem sempre entendo a poesia que alguns poetas mais jovens me confiam. Acolho, leio, sugiro. (Creio, não acolher seria fazer violência a eles; tanto quanto me omitir de opinar). Penso em Ulisses, mestre de espertezas, [capítulo 26], chegando ao término de suas viagens, e incitando os seus a ir mais longe, mais longe – e ficando no fundo de um fogo que o torna invisível.

Há um amor pelo ofício que deveria ser transmitido na e pela literatura, como vem sendo ao longo desses séculos, teimosamente. Roubo a Guimarães Rosa uma definição que deu de um vaqueiro, grande amigo seu: um profissional amador de seu ofício. Não é o sucesso, é o amor que fornece a “liga” quando tudo em nós parece esfacelar. Alberto da Costa e Silva disse isso num momento privilegiado: Quando nos criaram

as mãos dos deuses já estavam

cansadas.

Por isso

somos frágeis e mortais.

E amamos

para resgatar o que no deus

foi sonho. [5 de Outubro]. Mas isso é coisa para quem crê na função iluminante da poesia. (Ainda que essa iluminação não venha dos holofotes – mas de uma lanterna rigorosa, toda interna, de quem quer oferecer só o melhor de si. Apenas assim é possível celebrar a vida com um olhar acurado, de concentração – quando tudo, no ritmo de vida atual, leva ao disperso. Concentração: como o olho de Camões; ou o de Matisse). Assim o poema, essa máquina virtual de ressemantizar a vida, guarda intacta sua função.

 
>> Lourival Holada - docente do Programa de Pós-Graduação em Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, graduado em Filosofia pela Universidade de Paris VIII, doutor pela Universidade de São Paulo. Publicou Sob o signo do silêncio, 1992; Fato e fábula, 1999, em que faz uma outra leitura d'Os Sertões; La mouvence des choses culturelles et la circulation du sens; Presses Univeritaires Blaise Pascal. Clermont-Ferrand, 2004; Hautes Terres - un moment de la mémoire brésilienne. L´Harmattan, Paris, 2005.