Link das Letras
Por Lourival Holanda
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Uma geração “mouse à mão


A VII Bienal de Pernambuco é, no momento, o ímã a atrair toda a atenção em torno do Livro. Começa outubro com a capital cultural fazendo circular o capital. A grande praça do Livro vai estar carregada – como, num desenho, um traço a realçar um rosto. O livro se torna objeto de desejo, de curiosidade; ou pretexto de balada, de encontro; sobretudo, do encontro com o acaso que no fundo, cada qual quer acolher. Interessante observar que essa festa tem tido sempre uma participação considerável de gente jovem. Entre os óculos de falso “nerds” de um, ou a bermuda descontraída de outra, essa geração “mouse” “à mão” não dispensa o objeto livro.

Essa parece ser, também, a opinião desse experiente professor e editor que é Plínio Martins. O culto ao livro persiste. Fetiche? O livro – ou seu equivalente, a palavra – sempre estiveram no centro da cultura. E essa moçada que enche os corredores da Bienal está antenada. Ou talvez tenha percebido que o livro, companheiro sempre oportuno, pode nos aconselhar, desafiar, emocionar, ensinar, fazer rir, além de, e mais importante, mudar nossa maneira de enxergar a vida. Cada folha constitui-se num enigma a ser desvendado, principalmente na idade dessa geração. Aí, então, um livro é um encontro; carregado de inesperado, como todo encontro fecundo. Em “A convocação” (de Herta Müller – recém-laureada com o Nobel), uma costureirinha, que faz confecções para a Itália, manda, nos bolsos das roupas, um recado: Ti aspetto (Te espero). Num país sufocado pela repressão (A Romênia), alguém solta um sonho...

A Bienal tem um ar de ritual e festa: ritualmente ela volta a cada dois anos; e vira festa, encontro com as novidades, as belas edições. É verdade que ali a gente vai se deparar com muita coisa. O papel, coitado, sofre toda espécie de afronta em nome de “literatura”. Tudo presidido pela lógica de que sobretudo vale vender. Mas, a literatura mesmo, como aquelas mulheres públicas, sabem se emprestar a tantos e só de darem de fato, aos que as amam. Por isso a Bienal é também lugar de surpresas. É possível encontrar a juventude madura de Luís Augusto Fischer reavaliando a dependência de nossa literatura ao eixo Rio-São Paulo – e isso numa linguagem exata, leve e enxuta de quem pensa sem as muitas muletas das citações. (O ano passado, 2008, ele foi premiado com o “Machado e Borges”, pela Arquipélago Editorial, de Porto Alegre). Também vale dizer que é um professor-escritor, desses que se expõem, quando publicam uma narração; como em “Quatro negros” – que a L&PM lanço em 2005.

Wellington Melo perguntava o que, entre todas as atrações oferecidas pela Bienal, poderíamos considerar imperdível. Pergunta difícil, cuja resposta dependerá do critério utilizado. Esse evento, como o nome indica, ocorre, infelizmente, só uma vez a cada dois anos. Assim, devemos estabelecer o que é mais urgente – dada a circunstância. Assim, é claro que ouvir Raimundo Carrero, Luzilá Gonçalves ou Lucila Nogueira é muito importante; certamente. No entanto, prata da Casa, esses estão ao alcance da mão – ou do ouvido, quase a qualquer momento. Mas, nem sempre temos um Fábio Lucas falando sobre “O poliedro da crítica”. Ou Roberto Machado revendo a leitura de Deleuze sobre literatura. Creio que também não se deve perder Thiago Corrêa apresentando Daniel Galera e Ana Paula Maia falando sobre as novidades na literatura. Assim como, acredito, muitos vão ouvir o chileno Alberto Fuguet e Marçal Aquino indefinindo-se enquanto literatura, roteiristas, escritores. Também fico querendo dizer: não percam a revisão do legado crítico desse pernambucano presente que é João Alexandre Barbosa. Manuel da Costa Pinto, Delmo Montenegro e Frederico Barbosa têm coisas a dizer. Nem quero insistir no valor dos da Casa; mas é natural que os que hospedamos sejam ouvidos com uma atenção centrada; ainda que nem sempre a raridade da passagem corresponda à raridade da palavra.

Seria interessante também expor a produção dos “novíssimos”; dos que estão, no tempo da festa da Bienal, trazendo seus versos com a coragem de quem ousa; e que a gente lê com a ternura satisfeita de ver um movimento de continuidade. A temporalidade concentrada dos versos de Wilson Bezerra, da Fafire: “Em meio a uma multidão frenética eu paro
Bebo a minha cerveja e vejo a vida como um filme
cujos intervalos
são mais interessantes que o próprio desenrolar”. [Wilson Bezerra. Sobre a vida, vazio e cerveja]. Ou, em outro momento, quando já desponta no poeta (tão jovem) a consciência amarga de que, em dado momento, e por pura carência, “fabricamos” a quem amar. “Perdemos a razão tentando condensar um amor
Que só acontece quando temos apenas um ao outro. É isso.
Eu a amo quando não tenho ninguém.
Eu a amo em minha completa solidão”. Aqui se pode detectar um forte traço de Bukowski. Mas o ritmo dá ao verso mais leveza que corrosão; sem, no entanto, deixar de ter a contundência desse tempo forte. Também surpreende o vigor dos versos de Wandersson Hidayck, em Abaixo a questão:
“Engulo as certezas
não são cômodas
nem estão na moda
Toda certeza se reveste de mentira
Viva o lado vedado da vida”. A poesia de Wandersson crispa o punho – mas o ergue alto. Não escorrega no romantismo fácil; e também, pelo ritmo imposto, se impede a “pose”; e se resolve num verso conciso, carregando o essencial:
“Mar do mundo me dá medo
Mar de mim me dá morte”. A consciência do desencanto não diz necessariamente de uma idade. Mas surpreende que as coisas se turvem na madrugada da vida: “Encontro o nada
me dói inteiro
Encaro o nada
Nada mais há em mim. Seja como for, ou o “nada” de Wandersson ou o gesto de dar nome aos ventos para não estar sozinho”, (no verso de Jackson), há, teimosamente, a poesia – e, mesmo esse “nada”, ela o quer transformar em ritmo, em canto.

Parece ser o risco de uma geração desencantada pela impossibilidade de vanguardas -- que a descentralização contemporânea inviabiliza – buscando o próprio talento; e podendo perder-se em escândalos inócuos. No entanto, eles escrevem. Apesar e contra. Como se continuassem a crer, ou a querer, que a literatura seja, de fato, uma tentativa absurda de dar sentido ao absurdo.
As emoções, mais que as idéias, alargam as perspectivas. Talvez, daí, a persistência da poesia entre os jovens. Porque é uma quadra da vida em que as noções de luta, de amor, de dúvida e de fé em alguma coisa aparecem com mais força. (Quando falamos mal do “adulto” é tão somente pela perda da inquietação, pela retração ao elementar na vida; pela redução ao administrável. E verdadeira juventude, essa que não se enquadra numa idade, é, sobretudo, inquietação de espírito e atenção ao mundo possível).

O começo do sentimento de inadequação ao mundo pode pedir expressão poética. Os poetas são convocados a um mundo onde cabem mal. A poesia é uma evidência – mais que a razão da poesia. Ela é essa outra asa aberta sobre o real – e o difícil equilíbrio.
A beleza da poesia, pensam ainda, deve, primeiro, vir da namorada; passa um tempo, e começam a namorar a língua e o que nela podem criar. Taí o poeta despontando. À pergunta de Dostoievski – “somos ratos ou homens?” – se responde na inquietação de quem escreve. Essa é uma geração mouse à mão, certo; mas, seguramente, uma geração em busca de outra definição do humano possível. Por isso, os versos de Jackson, (devo a Flávia Santana o conhecimento dos versos dele) em sua Poética:
“Dei nomes aos ventos
para não morrer sozinho”. Esses versos também tocaram Alexandro Vicente, afinado ouvido bem moço – que às vezes tomo como referência para saber a recepção e a sensibilidade dos novos tempos. Há um ritmo novo no espaço cultural da poesia, por certo. E isso se percebe no ritmo desses poetas. Ou, no movimento das imagens, como em Mar isento:
“me deu sinal,
os barcos são meus ancestrais,
me deu azul,
embebedado com o que me conduz,
me deu imenso,
grávido como vela pelo vento,
depois silêncio
cruel como mar isento”. Nas estantes da VII Bienal, as vozes (“veladas vozes?”) estão ali conjugando tempos e registros numa relação continuada com os livros. Afinal, a literatura, essa reserva de significações sociais, tenta articular as variadas visões de mundo. Tentar articular já indica uma necessidade de criar, por sobre a desordem do mundo, uma coerência de segundo grau; seja: não natural, mas já cultural. Parece que esses poetas, jovens ainda, pressentem que reorganizar uma linguagem é uma outra forma de reorganizar o mundo. Em sala de aula ou nos encontros de pé de escada, sempre me vem a impressão de que, com eles falo em compasso, e eles me devolvem a música. Professor às vezes é um feiticeiro “encantado”.

 

 
>> Lourival Holada - docente do Programa de Pós-Graduação em Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, graduado em Filosofia pela Universidade de Paris VIII, doutor pela Universidade de São Paulo. Publicou Sob o signo do silêncio, 1992; Fato e fábula, 1999, em que faz uma outra leitura d'Os Sertões; La mouvence des choses culturelles et la circulation du sens; Presses Univeritaires Blaise Pascal. Clermont-Ferrand, 2004; Hautes Terres - un moment de la mémoire brésilienne. L´Harmattan, Paris, 2005.