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das Letras Por Lourival Holanda lourivalholanda@yahoo.com.br |
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| De que fala a literatura atual?
Aqui há um perigo: se a mudança for violenta e rápida demais, perde-se a percepção da referência anterior; portanto, sem se poder julgar, medir objetivamente seu “valor”. E o homem, esse misto de memória e imaginário, está sempre julgando (quer dizer: se posicionando ante as coisas). Certamente, a pós-modernidade, com seus pruridos de nada ousar julgar para não incorrer em autoritarismo, tampouco precisa tomar como modelo a isenção com que vaca vê passar, vagão após vagão, um trem a ela indiferente. Poderia ser de outro modo com a literatura contemporânea? Talvez não se ouse mais falar em crise de valores. No entanto, há uma questão no ar, desde que o mercado intervem -- quando não condiciona -- no produto literário. Sem, no entanto, satanizar o mercado, para santificar a literatura. Longe dessa oposição fácil, trivial. Resta que alguns escritores “respondem” a uma demanda de mercado. É a sabida técnica do best seller. Sonda-se a premência da fome e desperta-se o oportuno/oportunista desejo de satisfazê-la com algo aparatoso, e de digestão fácil. Interessa ao mercado. Como os poetas performáticos respondem ao gosto do espetáculo. Interessa à mídia. Mas, o critério com que se mede um bom repentista não é o gogó, não é o vozeirão: é ainda a capacidade de surpreender seu público, ainda que em rimas consensuais, com uma imagem inesperada. Maiakósvki, recitando seus poemas, era certamente um performático. No entanto, seus poemas não se esgotaram no gestual. Os textos permanecem, mesmo no balbucio semi-silencioso da leitura particular. Castro Alves, nas escadarias da Faculdade de Direito, aqui em Recife, a mesma coisa: já sem a empolgação descabelada, sem o gestual firme, sem o som hugoliano, o verso ainda levanta o ânimo, o espírito do leitor. (Tobias Barreto, no mesmo momento, trazia mais experiência, mais “consciência”; mas Castro Alves trazia mais: a conjunção feliz de um sentimento e uma forma expressiva. Portanto, o critério não é a idade – antes, é a educação de uma sensibilidade). Certo: muda rápido a sensibilidade dos tempos. Rubem Fonseca, num texto forte, Intestino grosso, dizia dessa mudança. Talvez, perda do tempo das nuances; e ganho no gosto pelo imprevisível. Em dado momento um personagem diz: não dá mais pra Diadorim. A realidade brutal do mundo, advindas de coisas que as mudanças sociais bruscas deixam deslocadas, poupa o impacto do sentimento diadorim deslocando-o para a necessidade de fazer face à extrema crueza externa. Segundo Marcelo Mirisola: Quem entende de compra e venda de negrinhas, almas vexadas, loteamentos na periferia e comércio fast food de acarajés, quem entende disso é pastor da Igreja Universal do reino do Edir: o resto são crianças putas e o Brasil em volta, caindo aos pedaços. Sequer se pode falar aqui em realismo, à moda antiga. O ritmo do mundo está mais para a alucinação – que é o realismo do novo milênio. O desafio, na literatura atual, é saber criar uma linguagem que tente articular os elementos díspares desse mundo alucinante. (O mundo pode ser desarticulado, mas o texto de criação tem o desafio de ser uma síntese do disperso. Ou, para dizer com Micheliny Verunschk: É preciso um poder organizador, é preciso criar relevância, é preciso qualificar.). De que fala a literatura atual? Perdidas aquelas referências que facilitavam etiquetar em escolas, a literatura nos novos meios, os blogs, sites, abriu, largo, seu leque de possibilidades. Há, hoje, um ritmo novo no modo de fazer literatura. Ela faz da experiência seu norteio; a maior parte dos textos são experimentações. (O texto de Janet Horowitz – Hamlet no Holodeck, 2003 – instiga a pensar como a rede virtual modifica a narrativa literária). Aliás, a literatura é isso: formas diferentes de dizer as variantes da vasta experiência humana – de inveja, de ódio, de violência, de desejo. A literatura de hoje continua a falar sobre a vida, continua a responder aos estímulos do mundo. Seja o mundo miúdo do imediato, seja os mundos que o nosso desejo configura. Não há, aí, qualquer hierarquização. Não há matéria nobre em literatura. Mas, há sim, a reinvenção de uma linguagem – e isso é fundamental. Dito de outro modo: pode-se falar de qualquer coisa, em literatura; nunca de qualquer jeito. Se os blogs literários circulam com enorme velocidade, isso comporta também um risco. Ceder à facilidade da tecnologia, da internet, pode levar a sacrificar o trabalho de elaboração – que define a coisa literária – na velocidade da comunicação. Afinal, o registro literário é mais que apenas uma extensão do gesto de Graham Bell, em 1816, estabelecendo uma comunicação mais rápida. A literatura organiza a linguagem num modo a levar, menos uma mensagem, e mais propriamente um impacto. A liberdade aqui não é tanto a falta de limites de dizer: é especialmente a liberdade de encontrar um modo de significar. E significar é deixar o signo comprometido com alguma coisa para além dele mesmo. E isso, com um álibi perfeitamente plausível: a liberdade de escrever do modo mais natural possível. O argumento, ainda que bom, não basta. A matéria da arte pode ser encontrada na natura – no entanto, arte é aquilo que o homem toca, transforma, transfigura. Por isso é um produto da cultura já. A ilusão da liberdade total pode ser aqui perigosa, como o gás que escapa, livre, no botijão que vaza. Gosto de ler a enxurrada de coisas que os blogs carregam. Desabafos, críticas carregadas com o calor do momento, deslumbres diante de textos que acabam de descobrir. Aqui e ali a gente sente um texto com um ritmo diferente. (E sentir diz bem: como quem toma o pulso e avalia como vai a cadência do coração). A perda do cuidado resulta da liberdade que, se não dirigida, se torna deletéria. Porque envenena o rigor, faz minguar a imaginação. Vale a velocidade da comunicação, se o comunicado não traz impacto nenhum? Há algum tempo – e nem tanto – Iumna Maria Simon desfechava um debate com: poesia ruim, sociedade pior. Toda razão. Quando a sociedade organizava (traduza-se: controlava) os procedimentos com a linguagem, certos registros eram temidos. Era preciso conjurar com o controle seus poderes e perigos. Mas, quando tudo pode ser dito, onde a concentrada força de um texto desestabilizador, onde? Talvez porque, com a necessidade de exorcizar o arbítrio das proibições, a sociedade atual tenha relegado a linguagem a um plano secundário de mero transmissor. Ou seja; a linguagem não é mais um espaço de criação, mas mero meio de transmitir compulsão de comunicação. Ora, essa função as redes sociais, como o Twitter Brasil, blogs como o de Luiza Voll – favoritos.wordpress.com – respondem bem. Alguma coisa se passa no mundo da literatura, nesse momento, que não deixa de levantar certa inquietação: os meios facilitaram a “produção” de textos. Mas, e se nesse afã ficar perdida a referência? A má moeda, aqui também, expulsa a boa. Faltando qualquer critério de valor, o texto, onde se esperava “literário”, se degrada e se desqualifica num território livre – sobretudo, livre de poder definir-se como literatura. Daí a ambigüidade fundamental de certos gestos modernos: vem defender, como a liberdade de expressão de cada qual; e findam por destruir, porque se estendem num espaço indiferenciado. E quando os textos vão, cada vez mais, se parecendo, mau sinal: a literatura vai desaparecendo. A “democratização” midiática traz dois gumes: valoriza a liberdade da expressão de si, é certo; mas pode ser em detrimento de ter mesmo o que dizer. Há um tempo atrás, Milan Kundera já sentia vir essa irresistível proliferação de grafomania. Circula um mito que escrever é um atestado de estar por dentro da cultura; um sinal chic; isso confere certa visibilidade que legitimiza a voz individual no concerto da cultura. A democratização do meio ajudou a indefinir – e a confundir – a expressão de si e o projeto literário. A cultura narcísica e o modelo do espetáculo, também levam lenha à consabida fogueira das nossas vaidades. Os políticos, as apresentadoras de tv, todo mundo quer ter um livro publicado. Legítimo: cada um carrega em si matéria de romance. Literatura é um modo de cifrar, através da linguagem, os sentidos possíveis do mundo, vasto mundo.
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