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Por Everardo Norões |
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| Uma tarde, do ano de 1931, num dos sobrados da Rua da União, quando o Recife ainda não estava “pregada na longa cruz das avenidas”, o filósofo Evaldo Coutinho veio em visita ao seu amigo, o poeta e calculista Joaquim Cardozo. E o surpreendeu sentado ao piano, a executar trechos musicais dos grandes clássicos. Mais tarde, o filósofo revelaria sua grande surpresa: desconhecia, até então, as qualidades musicais daquele que ele sabia poeta, poliglota, exímio engenheiro calculista e desenhista de talento. No entanto, a maior impressão que o filósofo Evaldo Coutinho guardou de seu amigo não foram as altas qualidades de intelectual, mas a forma como Joaquim Cardozo guardou intacta durante toda a vida ‘a unidade do pensamento e da estrutura moral’. E deixou registrado, num de seus textos que de todos os seus dons “eleva-se o da simplicidade na arte e na vida”. Essa inteireza de Joaquim Cardozo era da natureza daquela que outro poeta da mesma estirpe, Fernando Pessoa, soube expressar através de uma singular metáfora: |
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| Para
ser grande sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive”. |
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O poeta e calculista Joaquim Cardozo nasceu no dia 26 de agosto de 1897, no Recife, bairro do Zumbi, à época região de várzea do rio Capibaribe. Foi o nono dos doze filhos do guarda-livros José Antônio Cardoso e de Elvira Moreira Cardoso. O sobrado dos pais situava-se no lugar conhecido como Sítio do Cardoso, em terras que foram “do engenho Torre, ou do engenho Madalena, ambos citados na história da Guerra Holandesa”. O velho sobrado ainda existe, descaracterizado. Situado no nº 624 da Avenida Caxangá, serve de sede ao Cacique, tradicional time de futebol do bairro. Dentro da casa, uma placa, que ninguém lê, deixada por um de nossos governantes, registra que ali morou o poeta e calculista de Brasília. Em 1910, Joaquim Cardozo, então com 13 anos, mudou-se com a família para Jaboatão e começou seus estudos no Ginásio Pernambucano do Recife. Suas idas e vindas de trem ao Recife levaram-no a conhecer os companheiros de início de vida literária, os irmãos Benedito e Honório Monteiro. Com eles, funda o pequeno jornal O Arrabalde. Nas edições de 15 e 30 de novembro de 1913, Joaquim Cardozo escreve seu primeiro texto conhecido, um artigo intitulado Astronomia alegre. Escrito em forma de diálogo, tem o propósito de explicar, didaticamente, as mudanças do brilho nos astros. Com o desaparecimento do jornal, parte do artigo, no qual Joaquim Cardozo já tenta unir ciência e poesia, permanece inédito. Nessa época, Joaquim Cardozo freqüenta a Biblioteca Pública e o Curso de Preparatórios do Dr. Joaquim Pimenta. Aos 17 anos volta a morar no Recife e começa a trabalhar como caricaturista no jornal Diário de Pernambuco, ilustrando versos satíricos do jornalista Jáder de Andrade, numa colaboração que dura oito meses. Logo em seguida, ingressa na Escola Livre de Engenharia e passa a executar trabalhos de topógrafo que o levam a conhecer em profundidade não apenas a cidade do Recife (contratado pelo engenheiro Domingos Ferreira para levantamentos topográficos), mas outras regiões do Nordeste, como a Baía da Traição, na Paraíba. Ali, onde, segundo ele, o sol era tremendo, “não se podia levar água e a seca terrível obrigava-nos a beber água de chincho”. E assiste, pela primeira vez, festejarem quatro santos durante o ciclo junino: São João, São Pedro, mais Santo Antônio e Sant’Ana. Essas incursões alimentam seu imaginário e seus conhecimentos sobre a realidade social, fornecendo elementos importantes para sua criação literária. Seu encontro, em 1924, com José Maria de Albuquerque e Melo, fundador da Revista do Norte, a mais importante revista literária de Pernambuco da década de 20, torna-se um marco na vida literária de Joaquim Cardozo. Na revista atua como ilustrador e publica seus primeiros poemas. No Livro do Nordeste, de 1925, conhecido como Livro do Diário – comemorativo do centenário do jornal do Diário de Pernambuco, de Recife – Joaquim Cardozo publica seu primeiro ensaio literário, tendo como título Um poeta pernambucano: Manuel Bandeira. O ensaio é apresentado por Gilberto Freyre, que se refere a Joaquim Cardozo como “um dos poetas jovens mais interessantes de Pernambuco”. São também de Joaquim Cardozo as ilustrações e o desenho de capa do livro Catimbó (1927), de Ascenso Ferreira, que abandonara sua fase parnasiana para ingressar no modernismo sob a influência de Benedito Monteiro, como o próprio Ascenso viria a declarar. Joaquim Cardoso, Gilberto Freyre, Ascenso Ferreira, entre outros, inauguram o movimento modernista do Nordeste, de certo modo desvinculado do Movimento de 22. Joaquim Cardozo, um de seus criadores, poliglota, tem acesso às mais destacadas revistas de vanguarda editadas nas grandes metrópoles. Contudo, de origem pobre, assoberbado de trabalho, Joaquim Cardozo é obrigado a interromper várias vezes seu curso universitário. Somente aos 33 anos forma-se engenheiro, quinze anos após ter ingressado na Escola de Engenharia. Mas seus poemas já são conhecidos do mundo literário e seu gênio de engenheiro calculista não cessa de ser buscado pelos maiores arquitetos do país. Em 1934, integra a equipe de Luiz Nunes, um dos pioneiros da arquitetura moderna no Brasil, contratado pelo Governo de Pernambuco para criar a Diretoria de Architectura e Construção. A equipe de Luiz Nunes é responsável pelas grandes inovações da arquitetura do Recife. A equipe é desfeita três anos depois, em conseqüência do golpe do Estado Novo. Entre os membros da equipe, o grande paisagista Roberto Burle-Marx, criador de várias praças no Recife, entre elas a de Casa Forte e a do Benfica. As marcas na paisagem da cidade deixadas por esses homens, preocupados com a cidadania no seu sentido mais lato, ainda hoje contrastam com o descalabro urbano desenhado pelo descaso público e a especulação imobiliária. Catedrático dos cursos de Engenharia e Arquitetura, Joaquim Cardozo enfatiza a necessidade de que os engenheiros e arquitetos dominem a ciência e a técnica, adotando soluções adaptadas à realidade brasileira. Essa preocupação encontra-se presente na maioria de seus artigos, a exemplo daqueles que tratam da arquitetura popular, das casas sobre palafitas do Amazonas, dos movimentos da arquitetura brasileira e da filosofia da arquitetura. Muito além de seu tempo, extremamente crítico em relação à falta de visão pública das elites locais, a permanência de Joaquim Cardozo em Pernambuco tem dias contados. O estopim é seu discurso, no final de 1939, na condição de paraninfo da turma de concluintes da Escola de Engenharia. Demitido “a bem do serviço público”, a portaria assinada por Gercino Pontes, Secretário de Viação e Obras Públicas, do governo Agamenon Magalhães, sela a partida definitiva do poeta das várzeas de sua “triste e materna e noturna cidade”. Acolhido por Rodrigo Mello Franco de Andrade, que dirige o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a obra literária e a genialidade matemática de Joaquim Cardozo passam a ser reconhecidas na sua verdadeira dimensão. Em 1947, Carlos Drummond de Andrade prefacia, num longo ensaio, o livro Poemas, primeiro livro de Joaquim Cardozo, publicado quando ele já completara 50 anos e editado por iniciativa dos amigos. A partir de então, sua obra literária não cessa de se enriquecer com peças como Signo estrelado, Trivium ou O coronel de Macambira. E se o seu nome nem sempre aparece quando se fala nas criações arquitetônicas de Brasília, todos sabem que detrás de tudo aquilo há os ‘signos estrelados’ de alguém que conseguiu reunir poesia e ciência, proeza nunca antes tentada nos horizontes literários do Brasil. Samuel Rawet, outro calculista e escritor notável, registra com simplicidade o legado de Joaquim Cardozo: “O templo, o solar, a fonte nunca lhe apareceram encobertos pela neblina da distância, nem apenas como a aura dos monumentos. Viu-os com os olhos que vêem o esforço, a incompreensão, a luta de interesses, a avidez e a miséria. E, apesar disso, viu também o que há de permanente e que resiste como testemunha de um entusiasmo coletivo”. Essa ‘unidade do pensamento e da estrutura moral’, anunciada por Evaldo Coutinho, é o que faz com que Joaquim Cardozo possa ser admirado não apenas como grande poeta ou como grande calculista. Mas, sobretudo como a equação perfeita do homem. Expulso do Recife, Joaquim Cardozo regressa à sua cidade para tomar seu ‘último trem subindo ao céu’ e nos legar seu canto, que |
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| É
de sol, é de sal Desse mar nordestino Suas asas abrindo Como um pavão! |
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