O poeta nasce, morre (observa a própria morte tragada pelos elementos do seu sonho) renasce como a borboleta que rompe o casulo e se renova em cores diversas.
Para o poeta, revisitar a palavra é o seu grande momento. Falo sobre Vital Corrêa de Araújo.
O belo, o trágico fazem parte de um garimpo cuidadoso do poeta, numa busca que se ilumina como sóis de verão ou arrancam as raízes do seu território em tempestades de várias estações. É o súbito canto, rasgando asas de anjos e visões de fantasmas. São versos que se fecham para conter dentro deles, o imprevisível, o mágico, o amor e a morte.
Manipulando as palavras como um domador da sua voz interior e fazendo várias leituras dos gritos de uma humanidade que agoniza, há uma missão a ser cumprida.
Ser poeta é ser um artesão de uma arte feita de carne e espírito que transpõe o espaço do cotidiano que cria, recria e vem anunciando: “o poder de começar por si mesmo uma série de modificações”, como Kant definia a liberdade.
Senhor de uma poesia conotativa e segura, saindo do lugar comum no qual se enquadram uma grande parte de poetas contemporâneos, Vital Corrêa de Araújo alça vôos em nome de uma liberdade, que ele próprio tenta defíni-la perto
do Tempo
O seu “eu” poético, multiplicado pelo pensamento interior de cada poeta, gravita em torno do mundo exterior,
Vital mergulha do âmago do seu Ser, na sua concepção de vida, no seu universo próprio, para sair dos precipícios da sua realidade visionária entre as sombras e as cores.
Verbaliza sua busca constante, algo que sugere várias reflexões. Ele oferece ao leitor uma oportunidade de acompanhar o transe do mundo e os passos de um grande poeta melancólico. Observou Aristóteles muito bem que todos os indivíduos excelentes e superiores são melancólicos. Todos os homens que se destinguira na Filosofia, na política, na Poesia e nas Artes parecem Ter inclinação para a melancolia.
O leitor diante dos seus poemas, encontra realidades e artifícios da palavra que o faz pensar em diferentes oportunidades como se debruçasse sobre diferentes momentos, porém em todos esses poemas trafega uma busca intensa da sua realidade como poeta.
Na metáfora; a alma do poema, no seu jogo diário, nas suas oscilações, o poeta tenta aceitar a realidade tal qual ela se apresenta.
No topo do seu observatório ele é um “deus” emergido no Mar Egeu e nas rochas silenciosas do seu Olimpo particular. Sai, devagar, da sua caverna humana, tecido de folhagens e tendo cravado nos olhos hortênsias azuis dos trópicos. É um homem dividido na procura do céu e das garras do inferno e por ser dividido constrói pontes, aproxima-se do mundo e faz da sua poesia a senha da Paz que, numa linguagem especial, é a mão que traça pontes, aproxima-se do mundo e faz da sua poesia uma senha para reaver a humanidade.
O poeta recorre a uma presença cosmológica, nos dá também o testemunho de um encontro com a essência do pensamento universal.
É necessário o poeta se afastar dos homens para encontrar esses mesmos homens nas suas raízes, procurando que a dinâmica de sua linguagem obedeça às fórmulas mágicas e ao inconformismo de um pesquisa no campo da abstração ordenadora.
Esse isolamento do homem nos explica tão bem Camus: “Não há mais desertos. Para compreender o mundo, é preciso por vezes afastar-se dele; para melhor servir os homens, mantê-los durante um momento, a distância.”
A alma de Vital Corrêa de Araújo se debruça entre vários continentes, é a mesma mão que salva o náufrago de uma ilha distante, sendo esse náufrago o próprio poeta. No poema O Suspiro de Narciso, vemos a construção do imaginário e a realidade.
Vital tem uma poesia visceral que nos sacode e nos revitaliza “ há larvas no cadáver e estrelas no céu/ (simultaneamente como condição da vida universal)
Sublime, mágico, incomunicável com a futilidade, inteiro, denso, simples, erudito se faz o itinerário poético de Vital Corrêa de Araújo, estudado pelo grande crítico canadense Sébastien Joachim. Temos que salientar que Vital honra a nossa poesia nacional.