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| Mofo da Alma As curvas do caminho, de um barro avermelhado e pedregoso, pareciam intermináveis. O sol forte, sem pudores, derramava impiedosos raios sobre a campestre paisagem. Os trópicos não economizam os excessos. Crestam sem pedir licença aos que se curvam à sua jurisdição. A moça, de pele alvíssima, com um chapéu de palha rosa-vinho, descera do carro e descansava à sombra do cajueiro. A densa atmosfera, dificultava a pequena aragem que ainda poderia amenizar o calor insuportável. O mês de março sempre fora assim. Espesso, achavascado, consignando altas temperaturas. Mas, naquele dia, o mormaço indolente contribuía para aumentar o ônus de uma visita há muito adiada. Há quanto tempo pensava em voltar à casa-grande do engenho de Paudalho? Faltava-lhe bravura. E difícil retornar aos lugares da infância. O passado tem a capacidade de coser com fio de ouro a volumosa colcha de retalhos, alguns espaçosos, outros tão tímidos que só são vistos à força de lupas. O que restava das lembranças ali enterradas? As perguntas sucediam-se em intrépida seqüência, e as respostas jamais atendiam à correnteza das indagações. Aliás, perguntas não foram feitas para ser respondidas. Melhor preservá-las entre as medusas enigmáticas. Os mantras dogmatizam com recursos divinatórios aquilo que não tem explicação. Quem pretende decifrar os entulhos do armário enguiçado? A moça não aceitava o túmulo das lembranças. Tentaria escarafunchar o poço subterrâneo, tão bem defendido pelo arquivo de memórias mortas. Queria pouco. Apenas ver o que talvez lhe escapara aos olhos de menina. Voltava. Toda volta guarda alguma dor. Mesmo aquelas aparentemente inofensivas. Nenhuma é inócua. O suor escorria pela testa, a blusa de algodão finíssimo colava-se às costas, o trancelim delicado emaranhava-se ao pescoço. A moça ofegava, recobrando o fôlego em declínio. Manteve-se imóvel por alguns instantes. Não queria acidentar os acontecimentos. Com lentidão, retomava-os, um a um. Em balanço de garça, andou até a cancela num compasso quase de desistência. Estancou. As traves, grossas e roliças, entrelaçadas em formas desiguais, demonstravam o desgaste dos dias, sol, chuva, meses, anos... A madeira corroída, áspera a olho nu, crua de verniz, ainda albergava toques de fidalguia. Os largos troncos resistiam, o xadrez das taliscas mais finas apodrecera. A porteira, perra e empenada, como se há muito ninguém a ultrapassasse, gemia a falta de gente. A moça tímida avançaria o limite demarcado do interdito. Ver de longe, todos viam; entrar, nem pensar. Quem se interessaria em devassar os destroços de uma morada em ruínas? Refeita do primeiro choque, seguiu adiante. O crepitar da cancela despertou um cachorro que dormia próximo a um carrinho de mão, enferrujado e imprestável. Não estava só a moça do chapéu de palha rosa-vinho. Atalhando o caminho, o cachorro correu obstinado por entre o mato silvestre que avultava livremente no solo ressequido e pedinte de vegetação. Com uma longa saia de tecido leve, a moça não o acompanhou. Optou por uma pálida vereda, sua conhecida de antigas passagens. Era longo o trajeto. O chapéu de pouco valia. O sol castigava, o suor continuava a escorrer pela pele desprotegida. A paisagem evocava um deserto com druídas flutuantes, distúrbios visuais advindos do excesso de luminosidade, escassez de penumbra, devastação, asilo de loucuras, imensidões... Já em frente à pequena escada que conduzia ao terraço de madeira, organizado em talhas paralelas, a moça não conteve o retornar da cabeça e olhou para trás. O carro estava longe, dele já não se vislumbrava a imponência, o cão desaparecera nos fundos da casa... Enfim, encontrava-se indizivelmente só. Nos momentos intensos estamos sempre sozinhos. A sua sombra representava a única companhia. Ela mesma. Em si. Só. Não podia permitir que o imobilismo a paralisasse. Ouvia-se o som de alguns pássaros, poucos. Aquela hora, as vozes deslocavam-se para muito além do arcano engenho. Pensou em gritar a sua angústia; ninguém a ouviria. Angústia não se ouve, sente-se. Subiu a escada, chegou ao terraço então coberto por esparsas telhas. A face se contraiu. Desistiu. O tempo não aplacara o mofo da alma. Rogava por mais futuro. Com o chapéu de palha rosa-vinho na mão, retornou. |
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