MEDO DA MORTE
Everaldo Moreira Véras
É comum, no fim do ano, quando procedemos ao balanço de nossas vidas, o questionamento: no próximo ano estarei vivo?
Na realidade, a cruel dúvida nada mais é senão o medo da morte. Ninguém de sã consciência quer morrer, por isso especula, discute, pensa, ilude-se e finge até que sua vida não terá fim, será eterna. Triste engodo, o que há mesmo de certo e irremediável é a morte, que nos espera na esquina, cedo ou tarde. Mas, quando? — a gente indaga. Hoje? Amanhã? No ano que vem?
A incerteza é que ainda sustenta o indivíduo na luta pela sobrevivência. Morrer — a gente sabe que vai morrer, mas o dia, a hora é bom que se desconheça, para que o homem não enlouqueça nem entre em desespero, em pânico.
A morte (que o filósofo Aristóteles afirma ser a pior de todas as coisas) não respeita pessoa alguma, ninguém, eis por que é tão odiada e temida e repudiada.
Grandes gênios da humanidade expressaram as mais diversas e controvertidas concepções a respeito da morte, sem negar jamais o pavor que sentiam. Uns viveram longo tempo, outros, não. E nenhum foi poupado.
René Descartes resistia, declarava guardar enorme horror à morte, foi-se aos 54 anos de idade. Chopim calou-se aos 39. Castro Alves, ansioso de viver, silenciou sua poesia aos 24. Amadeus Mozart, a mesma coisa, mal chegou aos 35. O poeta Álvares de Azevedo — coitado! — findou-se aos 21.
Outros, ainda que de temperamento forte, não foram longe, como Hitler, que sumiu aos 56 anos. Napoleão Bonaparte, igualmente, aos 52. Dom Pedro II, aos 36.
Os de extraordinária serenidade de espírito souberam melhor driblar a megera. Haja vista Isaac Newton, que, tranquilo, partiu aos 85 anos. Wilson Churchill, aos 91, velhinho. Albert Einstein, aos 76, sem grande sofrimento. Schopenhauer, embora pessimista e deprimido, conseguiu chegar aos 72. Platão, o maior de todos os gênios, aos 80.
Houve, também os atormentados, vítimas de angústia, de tristeza, como Franz Kafka, que se calou aos 41 anos. James Joyce, aos 59. Marcel Prost, aos 51.
Por fim, Cristo, que, mesmo sendo Filho de Deus, não escapou. Contava 33 anos de idade quando partiu. E consta que, no instante final, na cruz, em meio à dor e à agonia, chorou convulsivamente. Com medo, apavorado.