Thaianne Cavalcanti é Ela e Juan Guimarães é Ele, confinados numa relação fragmentada desencadeando um turbilhão de emoções e paixões num clima tenso e contundente. O espetáculo iniciou sua temporada em março de 2010 na capital pernambucana.
Jorge Féo, que também faz parte da equipe que dirige o espaço MUDA na festiva Rua do Lima, Recife, na mesma casa onde já residiu o poeta Castro Alves, vem nos últimos anos desenvolvendo sua estética que mistura moda e artes plásticas com teatro. Uma estética ímpar. Não se trata de trabalhar com atores profissionais. Em geral são dançarinos ou modelos. Mas há casos de intérpretes que também não são exatamente amadores.
No caso desta montagem temos um bailarino no papel masculino e da atriz se exige um talento de ginasta, circense ou mesmo balé.
Há também influências da estética pop na ambientação da cena.
Nas palavras do encenador o que o espectador vê seria “Uma tensão em direção, uma tendência algumas vezes consciente, outras vezes inconsciente ou reprimida, numa característica de seres finitos e imperfeitos.”
O trabalho de dramaturgia e direção de Jorge Féo, no caso baseado no romance de Raduan Nassar - Um copo de cólera, vem evoluindo também, tende para a sondagem mais lírico-dramática do ser humano. Desde o espetáculo Elas até este último, o encenador busca desenvolver um estilo. O que não é fácil numa cidade que não privilegia o drama teatral (com sotaque local), como é o Recife.
Jorge também fala de uma “proposta cênica de uma cena vermelha”. Há pequenas almofadas perfumadas na platéia, adereços e luzes feéricas, barras de ginástica e outros elementos em vermelho. Mas nos parece que ele quer refletir que há vida nos autômatos tecnicizados dos nossos dias. É um casal urbano envolvido em discussões um tanto quanto fúteis como: você não comprou a comida do cachorro, ou : você comprou a comida errada. Em meio a uma guerra social surge um Brasil estranho. Uma intimidade, dividida com a platéia, estranha. Seres que buscam uma complexidade que parece lhes faltar, enquanto títeres no jogo das aparências.
Nem Ele nem Ela parecem ter espírito. Mas querem se encontrar enquanto corpos e conviver em harmonia. E é esse balé que vai se desenhando e relaxando o espectador num jogo, digamos assim, envolvente.
Jorge argumenta: “Duas histórias, dois universos paralelos, mas congruentes, que vivenciam conclusões e exclusões. Um casal com uma escolha, ficar juntos. A dificuldade da felicidade e da satisfação, o improvável estabelecido. O melhor beijo, o melhor sexo em contraponto a rotina esgotante, a paixão confrontando com a dúvida. Delírios ou verdades, o que for, Improvável tem em cena duas vidas que se amam na perspectiva do momento em que vivemos, o caos nas relações, nos entendimentos, nos conceitos. A proposta desta cena é multiplicar as possibilidades de comunicação dentro do foco da exaltação do discurso com um casal de atores bailarinos no palco. Estar em cena será angustiante para as personagens e de uma beleza sofisticada ao público. O texto será desafiador para os atores, instigante para a platéia e complicado para as personagens. Um gosto de coração apertado na boca.”
É pouco. Não explica. Mas o que se pede não é explicação. É sangue novo no teatro pernambucano. É autor que desenvolva um espetáculo que não seja de esquetes nem caricatural. Féo desenvolve uma postura ainda inicial nesta arte. Busca em Nassar seu apoio. Mas não é inábil. Algo nele nos sugere bem estar na escrita. Intimidade com a palavra. Resta-lhe agora alçar vôos maiores e desenvolver seus potenciais.
A cena se transforma a cada momento um num clima de avalanche de idéias e coloca em evidência as possibilidades do jogo. Se muitas vezes nas armadilhas dos clichês, isso podia ter sido lapidado. Mas talvez funcione como denúncia de um mundo artificial e/ou materialista. Um mundo que é bobo também. Mas é plasticamente agradável.
Com cenas cortadas e de inserção de dança e música, vozes em off, Improvável traz no seu bojo “variações contemporâneas”. Recife devia aumentar o número de artistas como esses que compõem esta produção.