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| Entrelinhas Por Moisés Neto moises01@terra.com.br |
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Lucélia Santos interpreta As Traças da Paixão ? |
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A peça As traças da Paixão (Com direção de Marco Antônio Braz, Prêmio Shell, por A alma boa de Setsuan, de Brecht, que esteve no Recife este ano com Denise Fraga) tem estréia marcada para breve no Rio de Janeiro e pretende se apresentar em Recife em 2010. A coluna assistiu à última apresentação dia 21 de outubro da temporada em São Paulo Lucélia nos recebeu de braços abertos e se mostrou de uma gentileza e amabilidade que nos comoveu, tratando-se de uma estrela do seu porte.. Apesar de ter feito muitos papéis na televisão (impossível dissociá-la da Escrava Isaura!) e no cinema (Luz del Fuego, Engraçadinha, Bonitinha mas ordinária, só para citar alguns) é no teatro que Lucélia tem sua raiz mais antiga.Sobre o passado ela declara: “Eu sou a Lucélia Santos de hoje, podem aproveitar antes que acabe. Eu não tenho saudade de nada, sou budista e mantenho minha vida e minha mente no presente. Entende?”. A primeira vez que a vi ela estava representando a peça Brecht segundo Brecht, aqui mesmo no Recife, no Teatro Valdemar de Oliveira. Eu era adolescente e estava começando a estudar teatro. Fiquei extremamente impressionado com o talento daquela menina-mulher que na ocasião dividia o palco com Walmor Chagas e Aracy Balabanian. Saí do teatro fascinado e disposto a estudar mais e mais esta arte tão antiga, a arte dramática. |
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Reencontrei Lucélia outras vezes: quando assisti à peça Pluft, o fantasminha (com ela no papel-título) e quando vi também A vingança de Tupã. Fui a São Paulo especialmente para revê-la e ela me recebeu com um abraço carinhoso, como faz com muitos que a procuram.No Teatro Augusta conheci também o ator que divide a cena com ela, Maurício Machado, com quem mantive um diálogo esclarecedor sobre a peça e o que significa dividir o palco com um mito da cena nacional. Sobre a peça ele declara: “Desde que Alcides Nogueira me apresentou este texto, montar esta peça tornou-se um desejo sem volta, uma obstinação, um incrível convite ao jogo cênico. Paco e a personagem que Lucélia interpreta, Marivalda Revólver, fazem parte de uma obra que traz em si todas as possibilidades: o popular e o erudito, o sagrado e o profano. Tenho profunda admiração pelo universo destes dois personagens e estou muito feliz pois estamos conseguindo pauta no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Espero também estar me apresentando dentre em breve no Recife. Muitos amigos me falam sobre o teatro de Santa Isabel, gostaria muito de ir lá.” Lucélia dá-nos sua opinião sobre o que é o teatro: “Teatro é uma equação. Teatro é impermanência. É construção mais dissolução. Sabe? É como todos os fenômenos compostos, como nós. É como nosso diretor disse, é mais ou menos como aquela história do Livro dos Sonhos do Borges: Fulano ao acordar não sabia se era um homem que sonhou ser uma borboleta ou se era uma borboleta que agora sonhava ser homem.” Daí o jogo Anastácia Romanov versus Marivalda Revólver, jogo de espelhos. A voz de Lucélia, sua atitude no palco, sua postura cênica, seu universo interior tão intenso, sua história de luta pela liberdade e dignidade do ser humano, tudo isso faz o palco incendiar. Os olhares que ela lança aos seres e às coisas traz muito da filosofia budista que ela sempre intuiu. Essa mulher de idade tão indefinida é uma espécie de símbolo do Brasil. Um país de escravidão, transgressão que olha para a bandeira e lê ordem e progresso, olha o lábaro estrelado e sorri misteriosamente. E Lucélia tem esse riso de Mona Lisa. A cena em que ela entra caracterizada de Anastasia Romanov é alucinante e impagável. Trata-se de uma alegoria cênica, misto de igreja ortodoxa russa, com roupa imperial psicodelicamente trabalhada. O cenário em si é simples e prático (movimentado pelos próprios atores com a ajuda de um contra-regra) de repente, depois da personagem Marivalda Revólver negar muito ser a princesa que teve a família assassinada na revolução russa, aparece caracterizada como a nobre sentada num trono e falando ao microfone . A cena em que ela entra caracterizada de Anastasia Romanov é alucinante e impagável. Trata-se de uma alegoria cênica, misto de igreja ortodoxa russa, com roupa imperial psicodelicamente trabalhada. O cenário em si é simples e prático (movimentado pelos próprios atores com a ajuda de um contra-regra) de repente, depois da personagem Marivalda Revólver negar muito ser a princesa que teve a família assassinada na revolução russa, aparece caracterizada como a nobre sentada num trono e falando ao microfone. O cenário e figurinos de Juliana Fernandes são um espetáculo à parte: vão do naturalismo ao simbolismo numa transição sem cortes. A criação de luz de Roberto Cohen e Célia Pagan, o “visagismo” de Mario Camioli ou mesmo a luz operada de modo eficiente por Tulio Pezzoni, fazem da produção, assinada pela “Manhas & manias de eventos”, coordenada por Eduardo Figueiredo,um exemplo de como o essencial pode ser bem variado sem cair no óbvio ululante. Se a trama se passa num lugarejo estranho, um cafundó poeirento, Lucélia transforma tudo em ligação cósmica. É notável também a força do ator Maurício Machado no jogo do interdiscurso que o espetáculo propõe. A mise en abyme (termo em francês que significa "cair no abismo"- foi usado pela primeira vez por André Gide ao tratar de narrativas que contêm outras narrativas dentro de si) parece ter sido a saída encontrada pelo diretor Marco Antônio Braz e talvez também pelo próprio autor (já consagrado) Alcides Nogueira. Um dia ele leu uma nota no jornal sobre uma mulher que, em Goiás dizia ser a princesa Anastácia Romanov. Ela tinha cara de índia e jeito de indie. Contava os detalhes do fuzilamento da família imperial russa, sua fuga para o Brasil. Atrás dela, sem disfarçar a malandragem estava um homem chamado Paco. Aquilo fascinou Alcides e o levou a escrever esta pérola da nova dramaturgia nacional. Fica no ar a questão do complexo de Édipo. E no coração a vontade de rever Lucélia aqui no Recife. |
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