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Wellington Virgolino, filho do casal Gervázio e Carmozina, nasceu no dia 19 de setembro de 1929, na casa número 5149 da atual Avenida Norte, no Recife. A família teve sete filhos, dos quais seis sobreviveram. Seu avô materno era fundidor e escultor português a quem a Capital Pernambucana deve várias obras de arte instaladas em seus parques e jardins daquela época uma delas a do Conde da Boa Vista, hoje na Praça da República. Desse ancestral, sem dúvida, ele e o irmão Wilton de Souza, herdaram a veia artística que desenvolveram com mestria, além da irmã Walternice, tapeceira e Walder, ator e professor de arte dramática. Da família fazem parte ainda Fernando Guerra, arquiteto e pintor, Ilka Rocha, Ladário Filho e Hugo de Souza, todos pintores. Wellinton Virgolino estudou na escola Maurício de Nassau, na Rua Velha, esquina com a Doutor José Mariano, onde funcionou a Casa de Passagem. Naquela escola deu seus primeiros passos no desenho, fazendo cartazes e ilustrações a pedido das professoras, em troca de boas notas, vez que não era muito de estudar, conforme ele próprio confessava, embora gostasse muito de ler e assim, aprendeu nos livros o suficiente para se tornar o artista que todos conhecemos e o admiramos. Falar de sua arte, não precisaria, muitos já o fizeram e nenhum deles foi parcimonioso nos elogios e ainda assim, pouco disseram a respeito da obra desse pintor autodidata, que também era desenhista, escultor, gravador e ceramista. O grande elogio estava no valor e na aceitação de suas telas com ele ainda em vida, pois não é fácil um nordestino chegar nas refinadas galerias do Sul e fazer sucesso. É preciso ter valor e às vezes maior que os de lá. Wellington parecia ser um homem marcado para a pintura, pois no lado esquerdo do seu rosto havia uma mancha escura que os menos atentos diziam ter a forma de coração. Será que já não era a palheta que o eternizaria através de suas telas? Não o conheci pessoalmente, portanto não posso afirmar. Despertou para a arte desde a infância, fazendo caricaturas e retratos de colegas com simples lápis de cor e crayons, ou então, com cacos de telhas nas calçadas das ruas do bairro da Boa Vista. Ao concluir o Curso Primário, transferiu-se para o Ginásio Pernambucano onde estudou até o primeiro ano do Curso Científico e lá, teve oportunidade de estudar desenho geométrico com Vicente do Rego Monteiro e só. Abandonou os estudos. Só não parou de pintar. Pintava de ouvido, conforme dizia, pois não tivera qualquer aprendizagem formal. Afinal para que estudar pintura se já nascera com o desenho da palheta no lado esquerdo do rosto? Foi um predestinado e ao mesmo tempo, um incansável batalhador na busca de marcar, seu próprio universo, sem o qual nenhum artista conseguirá atravessar o tempo, o verdadeiro juiz de todo e qualquer profissional. Começou de fato desenhando histórias em quadrinhos no próprio Ginásio Pernambucano, arrimando-se nos seriados do cinema daquela época, para depois criar suas próprias histórias. Como desenhista tinha um traço forte e expressivo que o fez tornar-se notável ilustrador nos jornais e através dessas ilustrações retratou tipos folclóricos e momentos ricos da sua cidade, tais como o carnaval, o passista, o vendedor de vassouras, colher de pau, raspa coco e grelha, o homem da cobra, a lavadeira e o fotógrafo lambe-lambe, do Mercado de São José, com suas barracas de almoço rápido. Wellington sempre teve medo da pintura e só foi perdê-lo a partir de 1948, aos dezenove anos de idade, quando conheceu o grande Abelardo da Hora, o mestre de muitos artistas pernambucanos, por meio do qual integrou-se ao SAMAR, Sociedade de Arte Moderna do Recife, do qual faziam parte, além do Abelardo, Hélio Feijó, Reynaldo Fonseca, Augusto Reynaldo, Ladjane Bandeira, Brennand, Gilvan Samico, Lula Cardoso Ayres, Waldemar das Chagas, entre outros. Mesmo assim, só conseguiu desvencilhar-se da timidez quando teve a coragem de apresentar pela primeira vez ao grupo seus trabalhos no dia 22 de julho de 1951. Assim foram surgindo os desenhos mais elaborados tecnicamente, tais como O Barbeiro, o Mestre Abelardo da Hora, além de outros de cunho social, tais como, Vida, Pescador de Siri, Cortador de Cana, Gente de Mocambo ou ainda de caráter filosófico, Pensando, Caminhando, Seu Gervázio Lendo. Ao perder a timidez com as tintas produziu algumas telas interessantes, cujos traços seria hoje difícil identificá-las como sendo verdadeiramente suas, porque em nada parecem com as formas contornadas das figuras que marcaram sua arte pictórica na maturidade. Dessa fase destacaram-se as telas Cadeira na Calçada, Marinete (sua esposa), Rosana (a filha) Ernesto (o filho) e um auto- -retrato, onde não esconde a “palheta” trazida de nascença gravada em seu rosto. Daí para sua primeira individual foi um pulo. Exposição que aconteceu no hall do Teatro do Parque, com as telas: Filha da Lavadeira, Lavadeira, Passando Roupa, Estendendo Roupa e Jangadeiro. Temática puramente política, influência do mestre Abelardo, um dos artistas que sempre manteve em sua obra o caráter político-social, culminando com a célebre coleção de gravuras em bico-de-pena, Meninos do Recife, publicada na época do Prefeito Miguel Arrais e mais tarde cedida para ilustrar o livro, Guerreiros do Asfalto, de minha autoria. Daí para frente, com sua segunda individual na Galeria de Arte Rosenblit/Astréia, em 1964, Wellington descobriu o traço que passou a caracterizá-lo definitivamente, com figuras oníricas, mascarando através das cores o verdadeiro sentimento do pintor. Em o Cavaleiro Mascarado do Cavalo Verde, não seria ele o cavaleiro, e o eqüino a esperança que acalentava seu peito em relação ao futuro de sua obra?
No ano seguinte a esperança do cavaleiro mascarado se torna realidade
com a consagração em São Paulo, na Galeria Astréia.
Àquela altura seus quadros já estão cobertos de
flores e de meninas com olhos graúdos e de traços personalizados.
De São Paulo para o restante do país foi uma questão
de tempo apenas, com o apoio de João Condé. O caminho dourado na vida de Virgulino surgiu quando o vendedor de jóias, Carlos Ranunfo se transformou no seu marchand. Através dessa parceria é que entendo, nasceu o verdadeiro artista, ou seja, aquele que cria seu próprio universo. E Virgolino passou a trabalhar dentro de seu macro universo, universos menores, tais como o do Circo, o do Zodíaco, o da Bíblia, e os Sete Pecados Capitais, para mim o mais expressivo.
Esse universo hoje disperso nas paredes de colecionadores anônimos,
não nos permitem mais ter uma idéia do conjunto dessas
coleções, cujo efeito é bem maior e nos permitiria
compreender a importância da obra do notável e saudoso
Wellington Virgolino, que viajou para o andar de cima no dia 23 de setembro
de 1988, deixando uma lacuna que até hoje não foi preenchida..
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