Um Urro para o Mundo
O grupo Urros Masculinos vem conquistando espaço e respeito no cenário cultural da cidade

 
     
 
Raphaela Nicácio

Três jovens, um sonho, um ideal. Poderia ser mais um capítulo das aventuras dos “três mosqueteiros”. Mas é “apenas” um grupo que chegou em Recife de forma simples, corajosa, e hoje alcançou o cenário da literatura pernambucana com inovação, pretendendo subverter o tradicionalismo. Sair dos “guetos”, das “redomas” literárias e ganhar as ruas da cidade.

A Festa Literária do Recife (Freeporto) surge como um festival que proporcionará uma reflexão diferenciada da literatura. Entre performances, apresentações irreverentes, off-sinas, curto-circuito e chá dançante da ABL; o Freeporto se propõe trazer a libertação. Dando continuidade a ação do Urros Masculinos, o grupo prepara-se para lançar a antologia “Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito ali”. O trabalho compila autores de diferentes idades e quer deixar sua marca geracional.

Fazem parte do Urros Masculinos: Artur Rogério, Bruno Piffardini e Welligton de Melo. Em entrevista ao Portal do Escritor Pernambucano, Welligton de Melo, conta a trajetória do grupo.

- O Urros Masculinos urra pelo o quê?
Por fazer literatura sem ter o rei na barriga.

- Pode ser considerado mais que um movimento literário?
Eu acho que não deve ser considerado nem um movimento (risos). Acho que é um grupo de escritores que decidiu mostrar outras maneiras de fazer circular literatura.

Como surgiu o grupo e como foi o processo para conseguir chamar a atenção do público e da crítica?
E nós chamamos a atenção da crítica? (risos). O grupo surgiu em 2008. O nome era uma brincadeira com o Vozes Femininas, toda aquela discussão sobre literatura de gênero e tudo mais. Já passaram pelo grupo Cristhiano Aguiar, Biagio e Fernando Farias. Hoje estamos Artur Rogério, Bruno Piffardini e eu, que entrei no começo deste ano. Na época o grupo tinha feito uma apresentação em outubro de 2008 e preparava outra. Em abril fizemos a primeira intervenção diferente do formato de recital. Foi uma ‘flashmob’ que aconteceu num shopping da cidade: lemos “Vou-me embora pra Pasárgada” na praça de alimentação. Depois tivemos a ideia de fazer a FreePorto. Mas como levantar algum dinheiro e fazer um lançamento simbólico? Aí tivemos a ideia de fazer o Sarapateliterário, que foi o primeiro leilão de manuscritos de escritores em Pernambuco. Na verdade, no formato que usamos, acho que foi inédito no Brasil. Lançamos a FreePorto em maio e agora estamos na reta final pro evento. No meio do caminho participamos da Bienal do Livro, fazendo uma apresentação e outra flashmob (o vídeo está aqui: http://wellingtondemelo.com.br/site/2009/10/video-da-flashmob/). Enfim, o Urros hoje é outra coisa, diferente do formato inicial de apresentações. É também isso, mas se transformou num grupo de agitação cultural (no melhor sentido da expressão!).

Alguns dizem que é um grupo irreverente, outros ressaltam como um grupo de jovens que veio somar com a literatura. O Urros pode ser uma fusão disso tudo e de mais alguma coisa?
Eu acho engraçado quando falam de ‘irreverência’ como se fosse algo divertido, mas sem seriedade. Acho que esquecem daquilo do ridendo castigat mores. O que importa é a literatura. As pessoas não sabem – ou esquecem – que nós escrevemos, temos textos publicados – em papel, na internet etc. A parte da agitação cultural é um pedaço do quadro inteiro, que talvez só será entendido depois. Mas eu queria ressaltar isso: irreverência não anula a qualidade da obra, muito meios a desabona. Não é preciso revestir-se de uma aura acadêmica santificadora para fazer as coisas com seriedade. O que as pessoas acham ‘engraçado’, está, na maioria das vezes em nosso caso, revestido de uma responsabilidade que deveria calar a plateia. Mas é difícil entender isso.

- A Semana de Arte Moderna marcou época ao apresentar novas ideias e conceitos artísticos, a exemplo da poesia através da declamação que antes era só escrita. Ao discutir e apresentar a literatura de uma forma diferenciada, sem seguir os modelos tradicionais dos Festivais, a Freeporto pode ser considerada como um movimento “revolucionário” que irá incentivar a mudança do modo de se discutir a literatura em Pernambuco?
Acho meio pretencioso dizer-se revolucionário. Tem tanta gente boa propondo discussões legais sobre a literatura. A FreePorto é uma proposta, a meu ver, nova no Brasil, porque discute o conceito de ‘festa literária’. Mas não a vejo como algo totalmente original ou a solução para os problemas em torno da divulgação da literatura e da formação de leitores. É a maneira que descobrimos pra retirar o pó das prateleiras. Espero que outros descubram a sua maneira. E assim vai.

Vocês sentiram resistência de outros grupos literários e dos próprios escritores pertencentes a tradicionais entidades culturais? Quais?
Olhe, se há resistência, não chegou a nossos ouvidos. Quem vai resistir a viver a literatura de maneira descontraída e leve? Com quem falamos houve um grande apoio. Apenas um órgão de quem esperávamos um apoio mais forte não se posicionou, mas isso é página virada. Enviamos um email convidando escritores que quisessem participar e fizemos uma reunião no Espaço Pasárgada (que, na figura de Clara Angélica deu todo o apoio desde o começo). Os que foram entraram na programação. Quem não foi, mas entrou em contato depois, também. Deve haver gente torcendo o nariz, mas eu posso dar jeito nisso? Eu posso também me incomodar? Não dá pra dar cada passo abrindo um guarda-chuvas para abrigar todos. Aí sim passaria a ser uma “festa do cabide” (risos).

Realizada no mesmo período da Festa Literária de Porto de Galinhas (Fliporto), o Freeporto é uma boa alternativa para quem não poderá ir ao “balneário das letras”?
E pra quem poderá ir também (risos). Acho que são propostas diferentes, que atraem públicos, de certa forma, diferentes.

Quais são as boas surpresas que o público encontrará na Freeporto?
A programação já está no site (www.freeporto.wordpress.com), mas há por exemplo o “Lançamento de livros”, em que os escritores ‘lançarão’ seus livros em plena rua da Moeda. Marcelino Freire, Cida Pedrosa, Pedro Américo de Farias e Lucila Nogueira, entre outros, participarão da coisa. Tem também um bate-papo com Santiago Nazarian sobre um conto inédito dele. Essas duas coisas acontecem no sábado à tarde. Na noite do sábado, um jogo da verdade com Jomard Muniz de Britto, chamado Toca da Raposa – a plateia vestirá máscara de raposa e fará perguntas a Jomard. No domingo é a FreeCareta, que é uma procissão literária em homenagem ao inesquecível J. G. de Araújo Jorge, homenageado da FreePorto. Jorge Martins, do Corpos Percussivos vai conduzir o grupo de maracatu Tambores do Pilar. Tem também “Miró invade!!”, que é a institucionalização das invasões de Miró, a qualquer momento na programação. Além do “Curto-Circuito”, que são apresentações em duplas com escritores daqui e de fora. Tem tanta coisa que devo ter esquecido agora! A programação tem muita coisa! É bom visitar o site!

- A Geração 65 foi um grupo literário pernambucano que marcou época e revelou grandes nomes da literatura como Alberto da Cunha Melo, Marcus Accioly, Raimundo Carrero, Lucila Nogueira. Na antologia “Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito ali” , promovida pelo Urros Masculinos, pretende-se buscar uma marca geracional para a atualidade?
Não há essa pretensão não. Nossa ideia é fazer um retrato da produção nos dez últimos anos. Muitos nomes ficaram de fora por conta do prazo que demos pra entrega do projeto ou outras contingências. Há muitos outros nomes que fazem a cena e que não estão ali. O que os une não é uma proposta geracional, mas o fato de dividirem a existência num momento histórico, que é o que acho que acontece, aliás, com a Geração 65 também.

- A poeta Maria do Carmo Barreto Campello de Melo deixou na força da sua poesia a maior lembrança. “Isso que vedes/não sou Eu/ Só me antecede/me prepara/ que vária e inconclusa/ subsisto e solitária assisto/ às muitas mortes de mim”. Sua relação de amizade com a poeta o influenciou como escritor? Alguns de seus poemas já foram inspirados na poesia de Maria do Carmo Barreto Campello de Melo?
Claro. Inclusive no meu [desvirtual provisório] o poema “Aérea” é pra ela. Mais do que isso, acho que a carne da minha poesia tem Maria do Carmo. Ela foi – é – uma grande inspiração, um grande modelo como poetisa e como ser humano. Acho que tudo o que se faz para não esquecer sua memória é pouco. Eu simplesmente amo Maria do Carmo Barreto Campello de Melo. Incondicionalmente.

- “(...) do mecenato sobreviverás a lançamentos solitários em tardes ociosas de shoppings lotados farás rimas fáceis em troca de um trocado bajularás os papas da literatura provinciana do recife por um prefácio velado lerás talvez um dia um comentário insosso num blog pouco visitado(...)”. Esse é um trecho do seu “Poema Wellington de Melo”. Ao longo de sua trajetória literária, quais foram os seus maiores desafios?
São tantos (risos)! Mas eu acho que isso só se diz depois, quando tempo passar. Se não fica parecendo lamúria. Deixa pra quando eu lançar minha própria autobiografia não autorizada.

- Como um novo autor poderá driblar as dificuldades? Unir-se a movimentos ou criar novas formas de expressão é uma boa solução?
Cada um deve buscar seu caminho. Grupos literários são bons até certo ponto. Você precisa encontrar a sua expressão, sua maneira de fazer as coisas, de escrever principalmente! Viver de literatura, pura e simplesmente, no Brasil, é uma utopia. No meu caso, sou professor, amo ser professor. E a melhor coisa é que faço isso que eu amo para poder sustentar outra coisa que amo, que é a literatura. Fica tudo em casa. Embora faça parte do Urros hoje, acho importante que cada um crie seu caminho. Como diria Antonio Machado, ‘o caminho se faz ao andar’.