Encontro com Bandeira
     
           
 
"Um encontro com Bandeira é um encontro com a poesia porque ele é exatamente isso: poesia em estado puro", afirmou a acadêmica, poetisa e jornalista Maria do Carmo Barreto Campello de Melo que entrevistou Manuel Bandeira, em 1966, como redatora do Jornal do Commercio, por solicitação do jornalista Esmaragdo Marroquim. O sonetista Waldemar Lopes também a acompanhou até a casa de Bandeira.
   
           
 
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo
entrevistando o poeta Manuel Bandeira

 

Durante o encontro, o poeta fez confidências sobre a sua vida e obra, a constante luta para resistir à tuberculose, o não medo da morte, o movimento modernista, como surgiu o poema Os Sapos. Ele, ainda, informa, com detalhes, sobre sua posse na Academia Brasileira de Letras e de como se livrou do fardão pesado usado pelos acadêmicos. Bandeira, ainda, destaca sobre a capacidade que a sua poesia tinha de fazer amigos. "Sentia-me reconciliado com a vida quando vi a influência dos meus versos em amigos e desconhecidos e compreendi que havia levado até eles, às suas angústias e pesares e até às suas depressões, uma palavra fraterna que tornou essa gente minha amiga", afirmou o poeta pernambucano, Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, nascido, em 19 de abril de 1886, no Recife.

A entrevista segue dividida em tópicos. Esta é a homenagem do Portal do Escritor Pernambucano aos poetas Manuel Bandeira e Maria do Carmo Barreto Campello de Melo que faleceu no ano passado, 2008, aos 84 anos e com intensa participação nos programas culturais do nosso Estado. Durante toda a sua vida trabalhou exaustivamente pela Literatura Pernambucana, fazendo e concedendo entrevistas, além de desenvolver projetos de apoio a pesquisas educativas e culturais. Tem doze livros publicados, colaborações em revistas, jornais, antologias. Uma poeta a serviço da celebração da palavra.

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Maria do Carmo Barreto Campello de Melo

Refugiado em Teresópolis, Manuel Bandeira defende-se do calor do Rio, mas não da poesia que o envolve por todos os lados. As serras ainda "azulam no horizonte" e as flores das quaresmas são uma mancha roxa na paisagem serrana. Bem juntinho do terraço onde conversávamos com Waldemar Lopes e Ruy Jorge Pereira Filho, há um jardim florido. Ele fala em linguagem simples, despreocupada. De vez em quando, involuntariamente, explode em conceitos e definições magistrais:
Aptidão - "Nunca me senti com vocação para a poesia. Há homens, como Portinari que, se encontrando quase em estado de penúria e convidado para cônsul no México, preferiu ficar no Rio, pintando. Outros, porém, nascem com aptidão para várias coisas. Eu tinha para a matemática, poesia, desenho e até artista de circo. Lembro-me de que tínhamos, como cozinheiro, um rapazola de 17 anos, que sempre ia ao circo. Tudo o que via, lá, repetia em casa, até rolar em uma barrica. Pois eu rolava melhor do que o mulato".

Incentivo - "Meu pai era engenheiro, mas gostaria também de ser arquiteto. Transferiu para o filho o gosto da carreira que não seguira. Sempre tive senso prático e sabia que, se não conseguisse fazer uma casa bonita, ela poderia ser, ao menos, cômoda, funcional. Aliás, é o que está faltando a muito arquiteto. Arquitetura não é estatuária, tem que servir aos seus fins, ao que se destina. Meu pai dizia que se conhece um arquiteto pela escada: nela, os degraus devem ter largura e altura de tal modo proporcionados que se possa subir tão suavemente como se estivesse descendo. Assim, enquanto meu pai fazia seus planos a meu respeito e eu, tanto fazia versos quanto andava na barrica, ia me aproximado da adolescência. Mas ninguém pense que eu ainda não namorava. Antes dos dez anos, eu já namorava; não meninas, as primas mais velhas".

Leitura - "No Pedro II, tive por colegas Souza da Silveira e Silva Ramos. Pelos quatorze anos, lia e admirava os clássicos e sabia de cor a Via Láctea de Bilac. João Ribeiro foi meu professor; e, se nas aulas nos limitávamos a ouvir suas explanações, aprendíamos mais fora das classes, nos corredores. Explicava-nos ali quais eram os melhores autores e por que eram melhores; dava-nos lições de estética. Havia, ainda, no colégio, um aluno mais velho do que nós, cercado de auréola porque colaborava na revista Rosa-Cruz. Como coxeava um pouco, a fama dava-lhe um ar Byroniano. Nunca ousei aproximar-me dele; mas, através da revista, comecei a conhecer os simbolistas".

A dama branca dos seus poemas - "Formado, mudei-me para São Paulo. Meu pai, engenheiro da Soracabana, desejava que eu ingressasse na Escola Politécnica, onde havia um ramo de Arquitetura. Além disso, já lá se encontrava um grupo de estudiosos franceses e alemães, além de gente nossa como Ramos de Azevedo. No fim do ano, fiz exames, passei e fui descansar na Fazenda Santo Antônio. Foi então que, depois de um longo passeio a cavalo, à noite, tive uma bruta hemoptise ( Bandeira levanta-se, ri e, de dedo em riste, declara ). Aí é que inaugurou a minha gloriosa tuberculose pulmonar. A ela devo o meu tête-a-tête com a morte, durante anos e anos. Essa luta com a morte (a dama branca dos meus poemas) é que eu considero minha maior glória, pois consegui resistir à tuberculose quando os únicos remédios eram o clima e a superalimentação (que nos estragava o fígado e o estômago). Climas, experimentei uma infinidade deles: Jacarepaguá, Campanha, Teresópolis e Quixeramobim - do qual espero, um dia, a ser cidadão honorário (só houve até agora dois; lá são muito exigentes...)"

Angústias e compensações - "Por fim, fui a Clavadel, de onde voltei sem bacilos e com perspectiva de vida melhor: já podia, agasalhado, enfrentar uma chuvinha e tomar sorvete. E pude, até me "curar da cura". É que a tuberculina, em fase ainda experimental, estava sendo aplicada em doses cavalares e muita gente morreu do remédio. Comigo foi diferente: examinado pelo médico e aguardando com ansiedade a aplicação, ele resolveu não me administrar a tuberculina, pois considerava meu estado sem esperanças. Foi um momento difícil: meu pai, chegando em casa com aquela mágoa e eu ansioso pelas notícias. Ele ainda tentou disfarçar, mas sabia que eu não era nenhum tolo. Afinal, resolveu-se: - Olhe, Nenen (Nenen foi meu nome até que minha mãe morreu, quando obriguei todo mundo a me chamar de Manuel), entregue sua alma a Deus, meu filho, ninguém sabe o dia de amanhã. Eu não tinha medo da morte, mas ficava revoltado de ser reduzido ao estado de imobilidade em que vivia. Tratei, então de arranjar um violão e fiz versos para me compensar. Eu não podia aceitar a idéia de viver até os vinte anos e ter vindo ao mundo para não fazer nada".

Primeiro livro - Meu primeiro livro, A cinza das horas, custou-me trezentos mil réis a impressão; Carnaval, duzentos. Esses versos de Carnaval foram feitos depois da leitura de poemas de Mac Fionna Leod que praticava o verso livre. O poema - Os Sapos, que costumava brincar perguntando o que era que os sapos diziam quando começavam a coaxar. Eu dormia no mesmo quarto com meu pai e uma vez acordei no meio da noite com o poema na cabeça e escrevi-o no escuro, para não o acordar. Carnaval caiu no gosto dos modernistas que organizavam, com grande alarde, o movimento, Os sapos foi declamado de maneira ruidosa, com participação do público que respondia e completava o diálogo: - Meu pai foi rei. - Foi!; - Não foi! - Foi! - Não foi!".

Realização - "Depois, os outros livros foram nascendo. Perguntam-me, muitas vezes, do que mais gosto, dentre o que escrevi. Eu não prefiro uma coisa só: prefiro, antes, algumas coisas a outras. Nesse sentido, em Libertinagem me considero realizado e definido".

Influência da sua poesia - "Senti-me reconciliado com a vida quando vi a influência dos meus versos em amigos e desconhecidos e compreendi que havia levado até eles, às suas angústias e pesares e até às suas depressões, uma palavra fraterna que tornou essa gente minha amiga. Vi que minha poesia era capaz de fazer amigos que tinham carinho pela minha pessoa. Vou contar a minha maior vitória nesse assunto: eu tinha um amigo, cujo genro não gostava de literatura nem de poesia. Um dia, esse homem chega junto à mesa do sogro e vê um livro meu que abre ao acaso e lê o poema da preta Irene. O sogro o surpreende, então, com lágrimas nos olhos. É que também houvera uma preta Irene, na infância dele, só com outro nome. Irene, de fato, existiu. Era gorda e feiosa e trabalhava o ano inteiro... para gastar tudo nos três dias de Carnaval".
Academia Brasileira de Letras - "Quanto à minha entrada na Academia de Letras, eu sempre resistia à idéia. Horrorizava-me aquela propalada defesa da língua vernácula. Eu queria escrever livremente e, além do mais, achava ridículo o fardão. Por outro lado, agradavam-me os modismos brasileiros. A propósito disso, vou relatar um fato interessante: eu estudara pela Antologia de Carlos Laet, e Fausto Barreto. Um dia, ao tomar o bonde, surpreendo Carlos Laet, escritor de sabor clássico, como todos sabem, dizendo - Me dê uma passagem de ida e volta. Então, eu pensei: ora, uma coisa dita por um homem da cultura dele não pode ser errada. Essas coisas todas me colocavam longe da Academia, até que, um dia, me entram pela casa adentro Ribeiro Couto, Cassiano Ricardo e Múcio Leão; e tanto argumentaram que acabaram me convencendo. Quando me referi ao fardão, Pedro Dantas me disse que quando casara também fora obrigado a usar fraque e calça listrada. Procurei todos os meios para me livrar do fardão; mas não teve jeito, e com ele é que, uma noite, fui recebido na Academia por Ribeiro Couto. Mas eu conseguira, a meu modo, uma solução. Não podendo tirar o enchimento da frente, por ficar preso ao bordado, eu me sentia sufocado. Não morri da tuberculose, mas vou morrer do fardão. Foi então, que me veio a idéia: mandar preparar uma ilusão de camisa que dela só tinha mesmo o colarinho e os punhos. E foi assim, e de cuecas, que enverguei o fardão e li o discurso de posse. Refiz, já na Academia, meus conceitos. Vi que dela fazia uma idéia errada: é uma verdadeira família, onde se encontram amigos com quem se pode estar em amável convivência todas as semanas. Aprendi a gostar e admirar pessoas que, antes, ironizava. É, enfim, a Academia, uma sociedade literária como outra qualquer".

Conceito sobre a Literatura Brasileira - "Considero a atual literatura brasileira muito boa, não só na poesia como na ficção e crítica. Boa, sobretudo, em extensão; e, se não podemos dizer que alguém escreveu melhor do que Nabuco ou Machado de Assis, em compensação, talvez pela maior difusão dos cursos de letras ou pelo entusiasmo que o Modernismo suscitou, há uma maior divulgação de cultura que despertou novos valores. A uma nucleação de cultura Rio-São Paulo, correspondem, agora, ilhas de reflorescimento cultural em muitos pontos. A província tem a sua vez. Em Pernambuco, nós temos um Mauro Mota, um Carlos Pena Filho, um Ascenso, um Joaquim Cardoso. E João Cabral, que é o maior desta geração. Não se há de negar, também, a própria evolução das formas novas, a contribuição que cada gênero traz (a poesia concreta, por exemplo, valorizou a distribuição plástica dos versos) ao processo literário. Quanto ao soneto, pelo qual se tem atualmente grande predileção, se tem tido um tratamento melhor e se enriquece por isso, não era menor em Petrarca ou Villon. Fiz agora, para os Cadernos Brasileiros, um Centão (coleção de versos reunidos em um só poema) todo tirado de minha poesia. As três mulheres do sabonete Araxá é, também, um centão: nele há versos de Oscar Wilde, Eugênia de Castro e Castro Alves".

Interpretações - "Alguns poetas se queixam de não atingir o povo, que não se identifica com a poesia deles. A esses sempre digo que isso só acontece quando o poeta consegue dizer algumas coisas que, lidas não se esquecem mais e são incorporadas à própria vida de quem as lê. Há poetas trancados, difíceis de serem apreendidos e que, no entanto, em dado momento, abrem uma réstia de comunicação. É o caso de Drummond que, de repente, se sai com essa: E agora, José? Há também, o fenômeno das interpretações. Aliás, Vallery afirma que o poema é tanto melhor quanto mais interpretações diferentes puder suscitar. O Beco, Por exemplo - Que importa a paisagem, a Glória, a baía,/ a linha do horizonte?/O que eu vejo é o beco. Ele já foi compreendido como sendo uma atitude de desânimo; mas não o é. O que acontecia era que, quando eu olhava aquelas coisas tão belas, era invadido por um sentimento agradável de euforia; mas o beco, com suas lavadeiras e sapateiros remendões, com sua vida e seus problemas, era o que interessava. Essa é a minha poesia cujas raízes mergulham em Pernambuco".

Infância e poesia - "Considero o período - dos seis anos aos dez anos - que passei, menino, no Recife, definitivo e essencial para a minha poesia. É o meu período mitológico".

Despedida

Manuel Bandeira levanta-se. A chuvinha que todos os dias se encarrega de aguar, por conta própria, essa cidadezinha encantada e florida, está passando.

Ele vai conosco até o portão; mas aí uma surpresa o aguarda: o motorista que nos conduzira está emocionado ao vê-lo. Ele também, lê Bandeira, conhece sua poesia e, através dela, tornou-se amigo do poeta.

Está ficando tarde. Vamos embora. Embora? De repente é Manuel Bandeira que está novamente conosco.

.......... Vou-me embora pra Pasárgada,
.......... Lá sou amigo do Rei
.......... Pasárgada o seu (e também nosso) reino encantado foi-lhe, na verdade, a compensação da vida inteira que poderia ter sido e que não foi o consolo daquela cor que o faz exclamar

.......... Belo, Belo, minha bela
.......... Tenho tudo que não quero
.......... Não tenho nada que quero

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Pasárgada, o lugar onde andarei de bicicleta, montarei em burro brabo, subirei no pau de sebo, tomarei banhos de mar todas essas coisas que a doença não lhe permitia. Pasárgada, a janela, a fuga, o sonho

.......... o que não tenho e desejo
.......... é que melhor me enriquece
.......... E somente que nada tem, mas tem Pasárgada, é que poderia dizer
.......... Eu faço versos com quem chora
.......... Eu faço versos como quem morre

.......... Entro no carro, vou partir, mas Manuel Bandeira acena, pede que esperemos; com um gesto leve, colhe uma flor e me entrega. Ele sabe, também, fazer poesia com as mãos...
Teresópolis, abril de 1966

 
* Maria do Carmo Barreto Campello de Melo foi poeta, escritora, jornalista, natural do Recife - Pernambuco. Autora de vários livros publicados, membro da Academia Pernambucana de Letras e de outras instituições culturais.