Jean-Yves Loude ancora no Porto das Letras
 
 
Cristhiano Aguiar
Raquel do Monte

         
     
 
A Fundação de Cultura Cidade do Recife, através da Gerência Operacional de Literatura e Editoração, retomou no dia 24 de setembro as atividades do Porto das Letras, espaço aberto ao público da cidade para debates, palestras e discussões sobre literatura. Desde sua criação, o Porto tem promovido o intercâmbio entre autores locais e de outras regiões, organizando encontros de estudos literários, além de oficinas de leitura e produção de textos.
 
       
   
A retomada das atividades foi realizada em parceria com a Aliança Francesa e o Consulado da França, que trouxeram ao Recife o escritor e etnólogo Jean-Yves Loude. Nascido em Lyon, no sudoeste da França, aos vinte anos Loude deixa a Europa e viaja pela Índia, Nepal, Paquistão, Afeganistão, Irã. Desde então, não para de percorrer os continentes à procura do humano, na tentativa de descrever as riquezas das culturas e o imaginário dos povos. Depois de concluir o doutorado em Antropologia, viveu dois anos junto aos Kalash, montanheses politeístas do Himalaia, no Paquistão. Em outra pesquisa, no Cabo Verde, recolheu músicas locais crioulas. Cada uma de suas viagens rende um livro destinado aos adultos ou aos jovens leitores, de maneira a dividir com eles suas experiências essenciais e sua confiança na parte criativa do Homem.
                 
 
“O homem possui talento para exterminar plantas, bichos e culturas”, fez questão de frisar na sua conferência, “e é nosso dever retomar estas memórias assassinadas”. Esbanjando simpatia, Jean-Yves Loude conversou com o público do Porto das Letras sobre suas viagens, enfatizando o seu interesse pelo mundo lusófono, que lhe rendeu livros sobre a presença africana em Lisboa, por exemplo. Segundo o autor, a proximidade com a cultura negra transforma Lisboa numa das capitais mais “abertas da Europa”. Outro momento muito interessante ocorreu quando o escritor francês fez o relato de uma típica festa de São Tomé e Príncipe, o Tchiloli. Como algumas festas populares brasileiras, no Tchiloli elementos da cultura europeia, como a história de Carlos Magno e os doze pares da França, se misturam a tradições religiosas cristãs e africanas.
 
                 
       
   
A valorização da cultura africana e da cultura popular, aliás, foi outro foco do debate, sem que isto traísse qualquer sentimento de eurocentrismo. Muito pelo contrário. Como frisou o professor da pós-graduação em Letras da UFPE, Lourival Holanda, que fez a mediação do encontro, Loude, em seu trabalho, tem a “generosidade de educar um imaginário para que este se abra ao Outro”.
                 
     
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