HAICAI,
A ARTE DE CONVERSAR COM A NATUREZA |
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| Cloves Marques(*) | |||||||||||||||||||||
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Conversar com a Natureza, por estas bandas do Nordeste
brasileiro, é um perigo. As respostas num diálogo com
um mandacaru podem ser espinhos, embora esconda água em seu interior.
O leito anêmico de um riacho seco, como na reflexão de
um esquecido sertanejo, faz-nos descobrir que "A chuva é
o sangue da terra!". Discutir com o Sol porque nos espreita na
sombra do umbuzeiro é irritante e pode nos matar esturricado.
Quer uma pá de lama nos seus olhos citadinos, encare uma prosa
de observação com os nossos manguezais. Mesmo assim, a
gente insiste numa conversa na busca de entendimento e integração.
De resto, como conviver se não houver comunhão? Como entender,
sem a percepção de que, em grande parte do Nordeste, só
contamos com duas estações, jocosamente denominadas De
Sol ou De Chuva?
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| Sutil
baraúna, no cerne, guarida ao aço, galhos à graúna. |
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| A
água cansada se espreguiça pela terra. Vida inventada. |
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| Nas
negras raízes, perambulam mistérios. Manguezal antigo. |
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A
poesia é uma arte que tem ajudado proficuamente nesse afazer.
E muito bem se presta para tal, porque é uma “lucidez enternecida”,
no dizer de Armindo Trevisan, que completa: “Quem se dispõe
a ouvir poesia tem uma certa comunhão com a natureza e com os
outros homens”. Nesse aspecto, estou convencido de que haicai
é vida. Reflete um estado de existência na explosão
de um instante. Diz daquilo que une o poeta ao fato presente. As lembranças
fluem, as projeções se fazem, mas, o fato desencadeador
do poema do haicai é do momento. Não se trata de algo
explicável, mas da explicitação da sensibilidade,
da síntese – lucidez –, por vezes, decorrente do
sentimento de presença - enternecimento. De resto, somos assim,
pensamos com a cabeça e com o coração. E, nesse
contexto, a poesia é alimento, na medida que faz entendimento,
que gera retorno. |
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| Uma
cuia d’água à sombra do umbuzeiro, o sol tudo espreita. |
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| O
cheiro de terra molhada refaz o tempo, que a chuva apagou. |
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| A
nuvem se ocupa em construir animais. A chuva cavalga. |
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Pela
brevidade – ou quase urgência de dizer, para não
perder a explosão do que nos assalta naquele átimo de
tempo – lança-se mão do haicai, poema que alcançou
a sua plenitude como filosofia e arte através do poeta japonês
do século XVII, Matsuo Bashô. |
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| Após
a trovoada passeio do sol sobre a terra. Tempero divino. |
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| Desmancha
na brisa o cheiro doido da manga. Fome não alisa. |
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| Olhares-lamentos. Ah! A boca da caatinga come os pensamentos. |
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Esse
terceto poético, o haicai, longe de ser uma prática literária
ou exposição de um gênero ou forma de poesia, é
a exteriorização de uma filosofia de vida, de quem nasceu
e convive com as peculiaridades de uma parte deste país continental.
Se uns desfrutam de neve, frio invernal, caídas folhas outonais
ou renovadas flores primaveris, temos muito sol e, por vezes, imploramos
pela celebração da chuva. Guardadas as referências
próprias, além de características físicas
específicas, temos a personalidade e os hábitos de um
povo curtido por um clima tropical. |
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| A
boca da noite usa raspa de juá: sereno perfumado. |
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| A
boca da noite usa raspa de juá: sereno perfumado. |
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| A
boca da noite usa raspa de juá: sereno perfumado. |
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No
livro “365 Haicais de Sol e Sol e Chuva”, dentro do simbolismo
de um ano de experimentação vivencial – racional
e afetiva – com uma região, sua natureza e seus seres racionais
e irracionais, exponho instantes experimentados nas minhas andanças,
principalmente pelo sertão nordestino. A maturidade dá
paciência para enxergarmos a Natureza que nos cerca. A complexidade
do todo nos leva à análise. O haicai tenta a simplicidade
da parte, na expressão da síntese. E assim, se dá
essa espécie de arte de conversar com a Natureza. |
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