30
anos de poesia: O olhar lírico de Lucila Nogueira |
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| Moisés Neto | |||||||||
Lucila Nogueira nasceu no Rio de Janeiro em 30 de março de 1950.
Pequena ainda, veio para o Recife, onde estudou e formou-se em Direito.
Cursou mestrados dessa ciência, como também o de Antropologia.
Foi promotora pública e exerceu outros cargos ligados à
sua profissão. Desde jovem dedicou-se às artes: piano,
violão, acordeom e principalmente literatura, sua fonte de testemunho
no mundo. |
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Em
1979 publicou o seu livro de estréia: Almenara pela Civilização
Brasileira. Livro cheio de uma poesia em que o amor, a preocupação
com o social e com os temas transcendentes do espírito, chegando
a atingir o plano do metafísico, se aliam a um verso caudaloso
e forte, de envolvente originalidade. A autora sonha, põe-se
ao lado dos mais fracos e oprimidos e deslinda os mistérios do
amor. É Lucila a consumir-se em poesia: “Eis-me aqui/sorvedouro
estelar lúcido e breve.//Corrosiva alegria(...)barro aceso e
convulso sob a neve(...)revolvida,torcida,esbraseada//labareda incessante
que se atreve/mas que a abismos se sabe condenada” (em “Presença”). |
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Veio depois, pela mesma editora, o segundo livro:
“Peito Aberto”(83)Um certo despojamento expressional e os
acentuados aspectos formais, marcam esses “primeiros” poemas
que, também, deflagram um clima uma atitude de amor e revolta.
Como no poema “Na Morte do Colega Pedro Jorge”:
“Sozinha agora as filhas acalenta/e ao pó tu já regressas sob o mármore./Tanta sabedoria inventa o mundo/-como escapar do mundo ninguém sabe.//Sozinha agora as filhas acalenta/e elas inda te esperam a cada tarde.../Só uma pena intimida os assassinos:/explicar tua ausência a essas meninas”. Nesses poemas pressentimos a força poética que Lucila alimentaria: “Atravessar o fogo ternamente/o corpo azul cercado pelas brasas/em cada poro o ferro incandescente/tendo no olhar a exaltação das águias //melhor que ser fantasma de si mesmo/besta na sombra, ombro recurvado /num desespero de albatroz vencido/por ambições terrenas e fugazes”. “Desde o princípio o mundo era pequeno/e o caminho da escola muito grande/andava a pasta a farda e no recreio/sonhava raptada por ciganos//dançando na fogueira a saia em leque/a estrada o carro alegre a caravana//desde o princípio o mar era sem termo/nas mãos as linhas soltas do destino/e no sapato escuro os remoinhos/acesos para sempre no meu sangue”(em “Infância”). “Meu pai morreu na tarde de um domingo(...)partiu da enfermaria sem saída(...)queimei todas as velas nessa morte(...)abrindo em minha carne uma outra sorte”. Vieram seus outros livros: “A Dama de Alicante”. Neste livro Lucila dedicou-se à recriação mítica e simbólica de si mesma “associada à memória proustiana que emerge de poema e que entre passado e presente faz ressurgir a infância, o amor, o sonho, a vida diluídos em mescla de sombra e luz numa realidade (ou irrealidade) mágica. Fusão lírica de elementos díspares, tom personalíssimo, sem autobiografismo, expondo sentimentos e emoções universalizando-os, sem ter que, necessariamente, os assinar como exclusividades suas.”, disse José Rodrigues Paiva em ensaio sobre o livro. “Sei me vestir de tola,se preciso/como essa antiga dama de Alicante/inda que ao fim só reste o que eu ensino/cama-de-gato que aprendi criança.//Sei me cobrir de frágil,de improviso/sob o furor de um cavaleiro andante/e as chaves da cidade conduzindo/pedir que permaneça por encanto.//Filtros de amor,doce paixão de abismo/navegaram meu olhar com esta dama/alegre que,misteriosamente/um dia suicidou-se em Alicante.” Já em “Quasar”(87)Lucila nos dá o a medida do nível já alcançado na construção de sua obra poética. “Equilíbrio na estrutura,adequação na linguagem ,tão rica de significados e sugestões.Ao dom de prever que, na antiguidade clássica,era atribuído aos poetas,acrescenta a autora,pelo milagre da integração cósmica,o dever de dar testemunho,antes que o fogo nuclear instale o caos”, disse Waldemar Lopes. “Formalmente bem construído, mas o que lhe dará o fermento da perenidade é essa dor humana, esse sonho traído, esse vôo alucinante. Em `Quasar´ é o destino do Homem que lhe ensombrece os olhos”, sugeriu Potyguar Mattos. “Quasar” já foi chamado de “um longo poema ecológico”. É a vez de “Livro do Desencanto”: o cotidiano como principal assunto, num tom instantâneo e confidencial por meio de versos simples e diretos, algumas vezes irônicos e invariavelmente melancólicos. Construção
lapidar do poema convergindo para o clímax no último verso,
como ápice de vertiginosas obsessões: “O corpo é
o caminho da virtude/e a loucura da alma faz sentido”; “as
víboras só cruzam com as víboras/e os pássaros
se entendem com os pássaros”; “no mundo tudo é
palco e personagem/com máscara não há o que se
discutir”; “faz de conta que o verso é como um rio/apagando
os insultos de tua face”. A mulher de Aníbal enlouquecida, a dramaticidade da paixão que os uniu. “A atualidade do drama de Imilce e Aníbal é garantida pela intemporalidade dos sentimentos representados e, ainda, pela focalização ideológica(a sua luta é vista como um combate contra a hegemonia imperial, a globalização romana, antepassado claro da pax americana)”. Acentuou Francisco Soares(poeta,crítico e Professor de Literatura da Universidade de Évora. No livro “Ilaiana” – Enigma de Elche, vemos a confirmação existencial e material de uma imagem nominada em sonho.Durante o percurso concreto e geográfico dessa realidade sonhada vão emergindo a saudade mítica e o referencial histórico-onírico de uma arqueologia étnica de alma.É o sonho em sua estrutura metafórica,o enigma proposto.A Dama de Elche é um monumento.Numa visão nostálgica,uma noção utópica vai então sendo evocada em suas variantes de identidade cultural num périplo fantástico onde uma Deusa Feminina faz valer a sua voz imemorial,sua lei poética ecoada milenarmente. “Um livro de emblemas produzidos como antídoto ao estigma de banalidade”,sugere a autora. Em
“Ainadamar”,publicado pela Oficina do Livro,Lucila levanta
sua voz: “Ouro americano para as guerras/ o ouro americanos para
as dívidas/ tantos anos de lutas e guerrilhas /e canhões
e cabrestos e caudilhos//esta virgem de prata é insolente/ seu
brilho é um ultraje ao povo índio/ tão puro e ingênuo
na floresta/ assassinado no colonialismo”. Nossa poeta dedicou-se
também à tradução de poesia,tendo alguns
volumes inéditos de poemas de Emily Dickinson,Paul Éluard,entre
outros. Suas
palavras são ornamentais pedras de transparência multicor,sobre
um metal antigo,ou um negro veludo de textura indefinível. Poesia
vem do grego poíesis (ação de fazer,criar,alguma
coisa).E é tema dos mais controversos nos estudos da literatura.Platão
e Aristóteles bem o disseram.Quando tratamos então de
separar poesia de prosa,o trabalho redobra,alucina:os domínios
mesclam-se. Se confrontarmos poesia e prosa neste novo livro de Lucila,e quisermos traçar parâmetros que aprisionem gêneros vamos nos deparar com o verso,que de modo algum pertence só a poesia, e com o parágrafo,que também não é exclusividade da prosa.(há verso sem poesia e poesia sem verso). O conteúdo:eis a chave das portas que une prosa e verso. Na poesia de Lucila, o jogo de metáforas,exposto dramaticamente evidencia uma mulher cujas raízes estão fincadas em terreno ambíguo. Sua
complexidade é prato cheio para manuais literários. Os
motivos histórico-geográficos e o lirismo intenso parecem
encontrar o ponto de ebulição .Como no poema “Canção
das Torres do Oeste”: “Vi na Catoira /o teu drakkar/Tuas
asas de viking(...) vai meu barco de vidro/ a te buscar/Inda te espero
em Pontevedra”. Ou em “Soída” (sim,seus títulos
continuam enigmáticos): “Barco de couro /sobre as rias/um
escudo de espelhos/sob o sol/ no oco do meu sonho/ sem palavras(...)Sonâmbula
nos lagos/e florestas/mordo a casca da árvore fatal/ a última
esperança /vem do mar/ saudade soledade/soída”.
É verdade que a extração do sentido e o sentimento
poético poderiam ser mais simples aos olhos pernambucanos médios.
Mas Lucila parece não fazer concessões,propositalmente.
Eis a esfinge poética em desafio. Se
o leitor se aquieta quando recebe uma das chaves para um enigma, “Os
menires são homens/encantados/quem os deixou assim /ninguém
traduz...”, Lucila logo propõe outros: “olha as pedras/em
busca do passado/dorme em furna galega/o rei Arthur//onde está
minha mãe/pergunto às árvores/no bosque de eucaliptos/sem
fim//cavalgo toda a noite /Zobiana/na esfera de cristal/ de Taliesin”
(in “Zobiana”). Paradoxalmente
em meio a indecifráveis,esfíngicas peças (poemas)
encontramos um escritora simples:onde o emotivo-rítmico –conceptual,pulsando,entrega-se
ao leitor. Seus escritos permeiam-se num não-enredo.Clímax e anticlímax. Tecem a sua subjetividade poética.Sua aventura,poética.”A fada chora/anunciando a morte/e vive para sempre/sobre os montes/os outeiros os lagos/e riachos/a fada dorme/dentro do carvalho//eu a vejo/no cume do penhasco/no fluxo e refluxo /das marés/no cinturão/das ondas sobre o abismo/a fada / ao vento da manhã//vem vestida de verde/na neblina/vem vestida de verde/na neblina/vem vestida de verde /sobre a ria/vem vestida de verde/fantasia/e se esconde nos hórreos/da Galiza” (in “A fada chora”).
A alquimia, fusão de elementos da natureza, está presente
nas conjurações de Lucila. “Deito-me
entre os visigodos e te recordo cem anos antes na Porta de Toledo enquanto
Recife ainda brilha em meu pescoço o reflexo da estrela de David.O
cálice do século XII derramou vinho verde entre as coxas
ocultas pela saia colada de veludo escuro que se confunde na camurça
da sandália repicada de strass. Eu te dizia que sou dark e essa
chuva no carvalho arrasta a sílaba excessiva para a lâmpada
de vidro enquanto camélias iluminadas deslizam sobre o rio Neva
e as altas aves do Aleph passam em revoada na curva do caminho excitadas
pelo som da fada louca tocando violino.” Como salientamos antes:estranha
pontuação.Estranha sintaxe ,essa da nossa dama de Alicante. Digo
que continua urgente a ilusão deste momento acometido de inenarráveis
confissões. Utopia presa na cartilagem úmida,quando tua
boca recobrir o seio seremos então,as duas outras faces de uma
mesma única possessão,como uma estória colada na
outra enquanto se lambe o lacre da carta escrita na infância que
uma água subitamente morna quase apagou.” Estendamos nosso
olhar sobre a obra de Lucila Nogueira, a que Recife, tórrida
cidade do Brasil nordestino, abriga. Ela nos convida mais uma vez a
novos pólos. Sejamos extremos junto com essa poeta-feiticeira.
Juntemo-nos com ela: poeta ficcionando-se, querendo dominar –homem/
natureza/ tempo e história |
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ORAÇÃO
PARA INVOCAR LUCILA |
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| Moisés
Neto
Profecia Ela
adivinha o presente Lerei o teu futuro agora mesmo! (difícil é o presente e o passado) Quem
a vir vaporosa, poesia e prosa, trocadilho, sem filho Lucila,
te invocamos Há
quem diga Ó
grandiosa Lucila Haverá
hermenêutica suficiente para saciar tantos devotos? Das
tardes impressionistas? Rogamos
que entres neste culto Ave
Lucila! Faz
nevar na cidade universitária Recebe
nossas oferendas e atende nosso pedido
Há
quem diga Serpente
original do tempo Ó
imaculada Lucila, teus poemas dormem nossos pecados e cálculos. Incertos
versos se ajustando
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