Raphaela Nicácio
“Nunca fui comunista. Sou uma mulher de senso de justiça. Poesia para mim é vida. É suor e sangue, é a dor contida pelas injustiças sociais e humanitárias”, afirmou a poeta, jornalista e pesquisadora Lourdes Sarmento considerada, àquela época, integrante do Partido Comunista. Desde cedo, a poeta enfrentou e frequentou grupos literários masculinos, atuou como jornalista, idealizou movimentos culturais, foi a primeira mulher escritora da Geração 65 a participar dos encontros literários da casa do sociólogo Pessoa de Moraes, em uma época onde a mulher era vista como uma dona de casa. Hoje, Lourdes Sarmento lançou seu 24º livro, “50 Poemas Escolhidos pelo autor”, Volume 43 da Coleção Prêmio Carlos Ribeiro da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, no dia 15/03, às 18h, na Livraria Cultura. Na ocasião, foi exibido um documentário sobre sua produção poética. O vídeo faz parte da série de documentários Poetas e Prosadores Pernambucanos.
No livro, a autora traz 21 poemas inéditos, além de outros dos seus livros “Explosão das Manhãs”, “Olhos de Tigre”, “Guardiã das Horas”, “7 Cartas e uma História de Amor”, “Rituais do Desejo”. A obra traz o selo das Edições Galo Branco, do Rio de Janeiro, que já editou diversos autores do cenário literário brasileiro: Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Lêdo Ivo. Como jornalista, Lourdes Sarmento trabalhou no Jornal do Commercio exercendo a função de redatora, cronista, e foi através do seu editor chefe, Esmaragdo Marroquim que publicou, em 1965, seu primeiro livro “Poemas do Despertar” pela Editora Nordeste .
Aos 22 anos, se destacou no jornal com a coluna de entrevistas “Cada resposta, um sentimento”, onde entrevistava grandes nomes da literatura, muitas vezes a convite dos próprios autores na Academia Pernambucana de Letras. “Por ser jovem e mulher chegava a me vestir com roupas formais para os escritores me respeitarem. Devido a separação dos meus pais, eu tinha uma aproximação enorme com eles. Bebia as palavras de pessoas experientes, que passaram a representar uma referência masculina na minha vida”, declara a autora.
Foi a primeira mulher da Geração 65 que frequentou a casa do sociólogo Pessoa de Moraes, autor do livro “Tradição e Transformação no Brasil”, obra que estuda as bases comportamentais do que o autor chama de “ciclo urbano-burguês”. Na casa do sociólogo, reuniam-se vários grupos de poesia, de vários focos de geração, escritores como Alberto da Cunha Melo, Jaci Bezerra, Zé Maria Rodrigues, Zé Rodrigues Paiva, Fernando Monteiro, Maximiano Campos, Raimundo Carrero.
“O que me surpreende é que certas pessoas hoje ignoram que sou da Geração 65. O poeta Marcus Accioly é um dos poucos que reconheceu, sempre considerou meus trabalhos a exemplo do Suplemento Cultural da CEPE, editado em 2005, onde foram publicados poemas meus mencionando-me como poeta da Geração”.
Além de frequentar grupos literários, também começou a participar dos encontros culturais na casa da pintora Maria Carmen, local onde se reuniam diversos artistas plásticos. Desses encontros, surgiu o Movimento de Arte Educacional em Pernambuco que marcou presença no trabalho de intercâmbio com artistas do Brasil, destacando-se a exposição de desenho de Di Cavalcanti e a criação de três Galerias de Arte nos Colégios: Damas, Salesiano e Marista. A “Coluna Roteiro Artístico” que escrevia no Diario de Pernambuco trazia um pouco das experiências e contatos que fez com esses artistas.
Quando trabalhava na empresa de telecomunicações de Pernambuco, (TELPE), era considerada integrante do Partido Comunista. Foi espionada por agentes que observavam e censuravam seus trabalhos. Em 1997, organizou a antologia Poésie Du Brésil publicada em Paris, catalogada pela Fundação Gulbenkian e, oficialmente, colocada na Internet pela Embaixada do Brasil. Sua obra mereceu elogios de Claude Sorel, poeta e jornalista francês. De acordo com a professora Anne-Marie Quint da Soborne, foi o primeiro livro sobre poesia brasileira, publicado em Paris, após trinta anos de silêncio. O professor e crítico Sébastien Joachim afirma que Lourdes Sarmento “é um dos mais seguros valores poéticos da passagem do Milênio”.
“Sou neta de uma francesa. Na minha infância, pressenti esse desejo. Estava na sala de jantar pintando uma bandeira da França e outra do Brasil e disse a minha avó: um dia vou à França mostrar meu país. Como eu poderia mostrar o Brasil à França? A antologia acabou sendo uma vitrine do nosso país”. 83 poetas fizeram parte da antologia como Adélia Prado, Afonso Romano Santana, Alice Ruiz, Astrid Cabral, Carlos Meja, Hilda Hist, João Cabral de Melo Neto, Lêdo Ivo, Olga Savary.
Participou, ainda, de 87 antologias nacionais e internacionais, tendo trabalhos literários e jornalísticos, apresentados em Washington e Miami (USA), Lima (Peru), na cidade do México, Lisboa (Portugal), Buenos Aires (Argentina). “Não sou poeta de inspiração. Faço sempre um exercício diário que pode ser um poema, uma crônica. Raras são as vezes que um poema nasce pronto. Minha poesia é acima de tudo feminina. Adoro ser mulher”, conclui Lourdes Sarmento.
>> Série de documentários Poetas e Prosadores Pernambucanos
A série foi apresentada pela primeira vez ao público no dia 28 de setembro no cinema da Fundação Joaquim Nabuco, no Derby. Trata-se de seis documentários, coordenados por Waldir Oliveira. Cada um narra a obra de um escritor pernambucano ou radicado no estado: Jornada de Sarmento (Lourdes Sarmento), A Luz de uma Mulher (Luzilá Gonçalves Ferreira), Mundo Raimundo (Raimundo Carrero), Castelo de Accioly (Marcus Accioly) Bandeira de Ronaldo (Ronaldo Correia de Brito), Liêdo do Povo (Liêdo Maranhão).
Lançamento - 50 Poemas Escolhidos pelo autor
Editora - Galo Branco
Está à disposição na Livraria Cultura Paço Alfândega (Rua Madre de Deus, S/n, loja 135)
>> Dados Biográficos (Lourdes Sarmento|)
Lourdes Sarmento nasceu no Recife, Pernambuco. Poeta, escritora, pesquisadora, biógrafa e jornalista é editada por Vericuetos/ Chemins Scabreux, em Paris, Editorial Francachela, em Buenos Aires, e Ediciones Alejo, em Lima.
É poeta premiada em Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais e detentora de numerosas homenagens no Brasil. Pertence a várias Academias de Letras e Associações Nacionais e Internacionais: Academia de Letras e Artes do Nordeste; de Artes e Letras de Pernambuco; de Poesia de Petrópolis – RJ; Carioca de Letras – RJ; da Recifense de Letras- PE; Estudos Literários e Linguísticos (Anápolis – Goiás); da Associação Internacional de Escritores e Jornalistas (México); da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro; da Associação de Imprensa de Pernambuco; do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco; do Conselho Regional de Relações Públicas; Rotary Club do Recife Encanta Moça (membro fundador).
Foi presidente de algumas Associações com objetivo de educar , incentivando o gosto pela leitura e exposições de artes plásticas. Na empresa Telecomunicações de Pernambuco S/A, trabalhou 23 anos como assessora de imprensa e conseguiu realizar um movimento cultural, com intercâmbio entre funcionários e Academias de Letras. Faz parte, como fundadora, do Movimento em Defesa do Livro Nordestino. No Rotary Encanta Moça é responsável pelo Café Literário, entre outras atividades literárias.
>> Depoimentos sobre a autora:
“A obra de Lourdes Sarmento é admirável. Além de uma poesia que é profunda e autêntica, ela também é autora de livros de pesquisas, ensaios, contos, crônicas, e de trabalhos apresentados no exterior, em inglês e espanhol (...) Os inúmeros críticos que elogiam e comentam seus livros definem sua poesia como telúrica e sensual – acrescentamos harmoniosamente feminina. Seu estilo é conciso e se cerca de imagens inesperadas que fazem o seu charme muito especial”.
Claude Sorel
Professor, crítico de poesia e ensaísta francês.
(Texto traduzido para o português)
“Ah, você tem razão de continuar seu trabalho sobre Poési du Brésil. Isso dará para o mundo, um motivo para sonhar, este nosso mundo está precisando mesmo... Eu quero lhe dizer, Lourdes Sarmento, que a sua presença poética me toca profundamente”.
20/03/2000
Jean-Paul Mestas
Poeta, crítico de literatura e editor, Nantes, França,
(texto traduzido para o português)
“Lourdes Sarmento revela um estilo vigoroso e um pensamento em plena eclosão de símbolos admiráveis. A autora se expressa, servindo-se da cor e da luz, para traduzir os sentimentos tumultuosos e profundos que agitam a sua estranha sensibilidade. Quando se mede a distância entre os seus Poemas do Despertar, percorrida por ela, até chegar à apoteótica afirmação da sua pujança criadora, em Explosão das Manhãs, pode sentir-se quanto foi aprimorada a sua arte mágica, no caminho da perfeição”.
Rio, 29/02/1973
Lincoln Nery
Jornalista e crítico de literatura Revista O CRUZEIRO
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