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Em defesa do Hospital da Tamarineira

 
     
 

Selma Vasconcelos




Há exatos dezenove anos, esta articulista assinava artigo publicado em jornal local (Diario de Pernambuco, 23 de outubro de 1991), acerca de mais uma ameaça de alienação do Hospital da Tamarineira. Este intervalo de tempo comprova que o capitalismo selvagem não abdica facilmente das tentativas de avanço sobre nossos bens coletivos.

Naquela época, quando tinham início, entre nós, as ações de reformulação do modelo assistencial psiquiátrico, propondo uma política antiasilar, alertávamos para a necessidade de uma concomitante garantia de infra-estrutura para a atenção ao paciente psiquiátrico que envolvesse políticas publicas de saúde mental , de assistência social às famílias e de alternativas de inclusão social destes pacientes recambiados às suas famílias e/ou ao tratamento ambulatorial. Do contrário, estaríamos repetindo o cruel modelo de “libertação ”, concedido aos nossos escravos pela Lei Áurea, que os alforriava mas os destinava a total exclusão social condenando-os à marginalidade pelo desemprego, situação de mendicância pela desqualificação para o trabalho e a conseqüente desintegração de suas famílias .

Pois bem nos dias atuais sequer conseguimos viabilizar em condições satisfatórias as políticas de atenção ao doente mental que autorizassem a exclusão definitiva do asilo como forma de atenção, e nos aparece esta proposta desrespeitosa de transformar a área do hospital da Tamarineira em mais um alienante Shopping Center.

O projeto, sorrateiramente, tenta apagar este viés capitalista e propõe a construção de centros de cultura (museus e área de preservação ambiental) numa conjugação esdrúxula de interesses bastante distintos. Aos que desconhecem, lembramos que hoje funciona ali um complexo de atenção à saúde mental representado pelo hospital, ambulatórios e serviço de recuperação de dependentes químicos (álcool). Ao lado disto, em outro sítio do terreno, atende-se à população infantil oriunda de famílias de baixo poder aquisitivo, através do Hospital infantil Helena Moura.

Tive a honra de ser a primeira diretora deste nosocômio havendo acompanhado seus primeiros 15 anos de vida , portanto, posso testemunhar (se preciso fosse) a magnitude do serviço prestado até hoje a nossas crianças, num nível de dedicação e qualidade incomuns nos serviços públicos de saúde.

Alem do mais, os proponentes ignoram o impedimento legal de intervenção em imóvel de preservação de área verde e o tombamento do terreno como patrimônio histórico estadual. É fácil compreender estes mecanismos de rutura da ordem em um país onde o poder central do planalto se contrapõe ao poder instituído do TCU e inaugura à revelia uma obra considerada sob judice por improbidade de sua contabilidade. Durma-se com um barulho deste!

Em contra posição, aquele sítio poderia consolidar-se como centro de preservação e controle da saúde mental de nossa população alargando-se o complexo já existente com a instalação de centros de convivência, hospital-dia, oficinas de música, de artes plásticas atividades reconhecidamente eficazes para a socialização e recuperação da saúde mental . Sem dúvida, a preservação da área verde está também inserida em técnicas ambientais propícias à tranqüilidade necessária à recuperação da saúde.

Para este final feliz anunciado, parabenizamos aos autores da ação popular, pelo exemplo de cidadania e à juíza Clara Maria de Lima Callado pela grande contribuição à defesa dos nossos justos interesses. É assim que se constrói uma sociedade democrática, justa e consciente de seus direitos.

Peçamos a Deus que na luta judicial que continua, a clarividência de outras Marias Claras nos ajudem a celebrar a recusa definitiva a tamanho assalto ao patrimônio material, social, histórico e cultural do povo pernambucano.

 




 

>> Selma Vasconcelos é escritora, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e Professora da Universidade de Pernambuco (UPE).