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Haiti: quando compaixão cobre culpa

 
     
 

Lourival Holanda


Diante do desastre do Haiti, as emoções chocando de imediato nossa sensibilidade, quase não há tempo de pensar questões mais fundas, às vezes incômodas. Como o desastre parece resultar de uma engrenagem que independe de nossa vontade, isso leva a crer que não temos culpa, que o que acontece ali apenas pede piedade. E o Haiti vem fazer parte de uma família circunstancial que, dilacerada, ainda assim, se vê próxima, humana. No entanto, uma lucidez crua poderia constatar uma enorme indiferença à situação do Haiti, antes do desastre. Assim, feito alguém que no dia a dia vejo morrer à míngua, mas a quem socorro numa dor de dente. (O que se passa ali é bem mais grave que uma dor de dente, é certo; mas, por que não nos espanta a indiferença anterior desses países, que agora correm solícitos? A mídia vai desenrolar sua ladainha de imagens de miséria, seu catálogo de redundâncias, e assim vai prender o espectador – passivo em seu penar, paralisado em seu pensar. E quase feliz pelo encanto reconfortante da assistência às vítimas, pela transfusão de recursos liberados.

E, no entanto, há um lado intratável da questão, que se mantem em severo silêncio. Por que o Haiti é hoje um bagaço de cana na cultura de um mundo tão gloriosamente globalizado? Há uma história oculta de presença espanhola, buscando ouro aqui; de presença francesa, investindo na cana; de presença americana, de 1915 a 1934. É quando é preciso desconfiar que há algo mais, recobrindo um fenômeno que parece tragicidade da natureza, não da cultura. Os milhões de haitianos excluídos da modernidade, desde as políticas nefastas de seus ditadores, do Papa Doc, de triste memória, até os Tonton Macoute. O ditador Duvalier exterminou 2000 pessoas apenas no ano de 1967. Imagina-se mal o clima permanente de insegurança na vida cotidiana, nesses tempos duros. Um país em estado de tensão permanente. (Um abalo sísmico, um tornado, um ciclone bem destrutivo? Males que se somam a males de desgoverno continuado). Isso inviabilizou qualquer veleidade de independência real no Haiti. E o mundo do capital ignorou: por que se ocupar ou preocupar com um povo que não produz? Taí um país colocado entre parênteses, na economia do mundo. Uma marginalização impiedosa e imensa. Como tantos outros, vivendo na periferia do capitalismo, e se deteriorando a cada dia, sendo apenas o espaço para aquilo que em nós pede o exótico e a comiseração.

Será que são responsáveis únicos de sua própria situação? Essa que agora se abate sobre o Haiti é uma miséria antiga. Mais longa e funda, que vem de sua história de espoliação – a cana virou bagaço ; o isolamento político tornou inflamável. É também um fenômeno comparável a tempestades, a tornados e ciclones; seu efeito de desgaste é mais longo. Por isso a consciência do mundo pode fingir não ver. E agora podemos acusá-los daquilo de que são vítimas. Passado o tempo dos ditadores, tem-se a ilusão de que se vive uma democracia. Isso contenta ao menos a consciência norte-americana.

Agora, a população errante que invade as ruas, o que fazer com ela? Ela passou da exploração à exclusão, da exclusão à insignificância, no cenário mundial. Aí, um dia a casa cai – e acorrem todos. No entanto, a indiferença tomou a forma do respeito à soberania; ninguém visitou o Haiti, antes. As bases carcomidas tornaram essa sociedade mais frágil e vulnerável a qualquer abalo cívico ou sísmico. Inútil ver agora só o que vem à superfície.

A cultura contemporânea vive de certas amnésias. Em 1915, quem noticiou o massacre dos armênios pelos turcos? Em Ruanda, não foi diferente. Soldados franceses enterrando vivos os resistentes argelinos. Entre nós, o fervor da República resultando na memória amarga em Canudos. Dentro de pouco tempo, certamente já teremos acomodado o Haiti no ritmo dos esquecimentos que o imediato fabrica. E o Haiti terá que se soerguer. Seguro: nós, negros, já teremos dispensado a comiseração; restará a firmeza.

Por que não se revoltaram, nos governos anteriores? A revolta pede uma consciência – ainda que mínima – de sua dignidade, de suas possibilidades. Os governos anteriores lhes tiraram qualquer orgulho, e deixaram essa resignação mortificada de quem sequer ousa reação. Será justo exigir deles uma reação, uma resistência, quando ficaram assim acuados, como alguém desprovido de si mesmo? Eles viveram até então na preocupação da sobrevivência. O que esse desastre faz é remover do fundo do desamparo um fiasco da colonização, que as ditaduras perpetuaram. (Por isso, espanta que tanto se fale em “maldição”, “castigo”: as causas humanas precedem os desastres naturais). Para mostrar a extrema fragilidade: os haitianos não poderam sequer guardar memória dos desastres anteriores, desde 1900. Essa memória teria permitido medidas de prevenção. Mas ali, viver é um risco assumido na aventura do diário.

Não se leva em conta que esse país foi destruído bem antes desse desastre; que sua deterioração já vinha sendo apontada por alguém como o escritor, pensador político do país, George Anglade – que se foi agora, soterrado nos escombros com a mulher, Mireille. Ele havia lutado contra a ditadura de Duvalier; por isso foi preso em 74. Depois, fez estudos jurídicos e geográficos, na França. Lembro que publicou em 82, um livrinho notável, Espace et Liberté. George era uma espécie de consciência crítica do Haiti contemporâneo. Em 2002, e já ano difícil porque de catástrofe no país, publicou Ce pays qui m’ habite. Esse país que mora em mim. Outros escritores continuam esse combate pela melhoria do imediato, abrindo espaço ao sonho de mais vida, pela literatura. É o caso de Kettly Mars, romancista haitiana, autora de Fado. Também de Lyonel Trouillot, autor do recente Yanvalou pour Charlie.

Há uma ínfima minoria letrada que vive longe a angústia de pouco poder fazer. Talvez seja o caso de Dany Laferrière, que vive no Canadá, mas sempre imantado pelo Haiti. Recebeu reconhecimento dos seus e dos europeus, quando ganhou o Médicis do ano passado, com L’énigme du retour. São escritores que respondem ao voto de Eduardo Maia (Continente Multicultural) quando espera sempre que os escritores, os intelectuais, se pronunciem sobre o modelo de mundo que estamos a construir. O intelectual não precisa ir às ruas e tomar pedras; mas é bom que tome partido. A comunidade espera que uma sensibilidade e percepção especiais permitam ver diferente e sonhar o possível. Talvez assim George Anglade, que foi conselheiro de Jean-Bertrand Aristide (o “Titid”, como a população o chamava) e do presidente atual René Préval, tenha ajudado um país a não desesperar. Os amigos lembram sempre do riso de George Anglade. Aqui pode estar a função quase invisível e onipresente da literatura; em crer e, e consequentemente, criar. A literatura é ainda um espaço de liberdade. Renunciar à utopia de uma sociedade igualitária? Seria ser cúmplice das violências das desigualdades.

A omissão com o Haiti, ao longo desses anos, isso nenhuma missão agora cobre. Porque é agora que ela melhor se faz ver como uma omissão mortal por deixar exangue o país; com suas virtualidades sinistramente abortadas. Drama e desastre poderiam ter sido, se não evitados, ao menos minorados. Comumente ficamos surdos aos dramas que se desenvolvem em silêncio. Agora vamos ouvir a gravidade dos teóricos discursando sobre a miséria nos jornais televisivos de todos os quadrantes; vamos ouvir os votos piedosos matracando feito ladainhas, ligeiramente banhados de humanismo cristão, sobre as imagens do horror, que a imprensa parasita faz proliferar, para prender o telespectador. E ninguém vai lembrar que aqueles corpos apodrecendo ao relento, aquelas almas arruinadas pela desesperança, aquelas crianças de olhar envelhecido pelo desnorteio, pela falta de presença, de respeito, tudo isso foi fruto da ferocidade de nossa indiferença anterior.

Mas ainda acreditamos, ainda escrevemos, olhando de longe o Haiti – que se prega a nós. Porque esperamos; e a esperança é uma força propulsora do real. E, sobretudo, não há porque tomar um mau momento como definição de mundo. Ó Haiti é como a vida: frágil, imponderável – e há de sempre surpreender. Afinal, esse país já foi “a pérola das Antilhas”. Também foi líder, ficando independente de fato em 1804. Portanto, bem antes da vontade de independência de Pernambuco. As energias juntas que nesse momento convergem ali, podem fazer esse país dar um salto quântico e participar do diálogo efetivo das nações. Com a firmeza elegante do ser negro que sabe se soerguer.



>> Lourival Holada - docente do Programa de Pós-Graduação em Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, graduado em Filosofia pela Universidade de Paris VIII, doutor pela Universidade de São Paulo. Publicou Sob o signo do silêncio, 1992; Fato e fábula, 1999, em que faz uma outra leitura d'Os Sertões; La mouvence des choses culturelles et la circulation du sens; Presses Univeritaires Blaise Pascal. Clermont-Ferrand, 2004; Hautes Terres - un moment de la mémoire brésilienne. L´Harmattan, Paris, 2005.