Minha Pátria / Meu Umbigo

Saí de Buíque aos 15 anos de idade. Com que vaidade e orgulho deixei a cidadezinha onde nasci, com destino à capital. Anos depois, porém, estava igualmente insatisfeito: o Recife era província, pequena demais para comportar minhas ambições e sonhos.

Rumei para o Rio de Janeiro e, daí, conheci todo o Brasil, e mais alguns outros países. Não fiz fortuna. Fiz amigos famosos, entre eles: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, José e Elysio Condé, do Jornal de Letras; Joaquim Cardozo, que veio a prefaciar o meu primeiro trabalho; Plynio Doyle, Anna Amélia Carneiro de Mendonça, Luiz Luna e muitos outros.

À procura do meu lugar, acodem-me as interrogações filosóficas: quem sou eu e onde estou? Eu mesmo já havia proclamado nu, poema: A cada homem se contrapõe um lugar-espaço, uma cama e uma mesa. Já havia observado que até os animais inferiores demarcam seu lugar-espaço, pelo qual matam e morrem. Então gritei: “Que espaço tenho eu?”.

Refletindo fundamente, constatara: Sou um caipira! O marco zero de minha existência é Buíque. O meu norte está na direção de Buíque, Pernambuco, Nordeste, Brasil, América do Sul. Aqui está o meu mundo composto não somente de terra, mas também do céu, da água, do ar, da fauna e flora; mais dos hábitos e costumes; dos amores e das solidões; das derrotas e das glórias; das tristezas e das alegrias e, principalmente, de uma língua vernácula, língua das minhas canções de ninar, ouvidas quando ainda estava no ventre; e de que me basta apenas um “fum” (totalmente nasalado) para eu alcançar a mensagem do meu interlocutor.

E nessa ânsia coletiva de se estar num “primeiro mundo”, concluí: este é o meu Primeiro Mundo! Fora do qual, sou estrangeiro.
Cedendo espaço ao espírito cigano, declaro: Minha pátria estende-se a quatro cidades: Buíque, onde nasci; o Recife e o Rio de Janeiro, onde vivi a juventude, e Brasília, onde inauguro a velhice. Sendo que Buíque é a Pátria-Umbigo. A marca mais funda da minha digital, onde se identificam minha própria alma, o meu caráter, a minha dignidade.

Aquela dignidade que Euclides da Cunha reconheceu no povo de Canudos, no nordestino, no sertanejo, que o levou a classificá-lo como “antes de tudo, um forte”. Forte é todo aquele que admite o chão onde nasceu como a sua única pátria e nele se faz cidadão e constrói a sua cidadania.