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SETE SOMBRAS COM ARREMATE SOTURNO
I
Jardins com sombras antigas
trazem lembranças do lar.
Histórias chamam cantigas
que ninguém vai mais cantar.
Nasce a esperança do nada
como o finito do tudo
deseja a voz quando é muda.
II
Com as mãos rasgar pensei
cartas que não recebi.
No escuro, sono desfeito,
vi sombras e me perdi.
Ao que já
não pode ser
antecede a tempestade:
a manhã de nossa herdade.
III
Já voltaram os sonhos velhos,
mas não os posso contar.
Minha voz quase emudece
se a linha da luz passar.
Ninguém pode conceber
o clarão que me envelhece.
Nem o raio que não cessa.
IV
Duas coisas neste mundo
eu não posso compreender:
a primeira é bem profunda;
a segunda vou esquecer.
Se a escuridão desta noite
não me deixasse tão só,
eu lembrar melhor.
V
Quem, dormindo sobre sombras,
vê com os olhos fechados,
o que não refez o ontem
sem futuro nem passado?
Quero inventar os três tempos.
Dos três perder até dois,
pois nada verei depois.
VI
Onde porei as sementes
quando chegar o verão
com seu sol incandescente?
As raízes me dirão.
Se o pórtico vem da sombra,
por que só a terra escura
cegará o meu futuro?
VII
O cego espelho não vê
nem os olhos nada enxergam
quando o homem por querer
no clarão as sombras perdem.
Que ironia! Ver no escuro
o que nunca vejo em mim:
Sombras. Sombras. Sombras. Fim.
Do livro inédito
Balada dos Últimos Arcanjos.
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