No Galope da Cardã

     
   

Afasto-me do litoral, distancio-me da maresia e do gás carbônico, procuro respirar a brisa fresca do agreste ou o bochorno abafadiço das caatingas nordestinas.

A cruviana do amanhecer na Serra das Ruças é a mesma que sinto ao chegar de noitão no pináculo da Borborema.

A égua cardã reapareceu amarrada no esteio claro/escuro do alpendre das recordações. A viagem continua enquanto o meu cavalo rodado, que não bebe-em-branco, faz a cobertura das bestas parideiras. A beleza das mangas-largas permitirá uma nova safra de poldros marchadores.

Preparo os alforjes. Dispenso o surrão para a viagem campesina.
Cascavilho nas algibeiras e remexo as velhas gavetas do tempo em busca d’algumas pratas de mil réis para garantir a complementação do farnel nas bodegas do interior. O brote com mariola pede uma cuia d’água doce e fria vinda do pé da serra para a jarra de barro da minha avó.

Encalquei a espora na cardã para que não esmorecesse a passada macia e chegássemos aos campos verde-oliva do agreste paraibano.

Avistei de longe a baraúna centenária ao lado da casa antiga. Olhando para o poente, a mata virgem do meu avô ondeava na folhagem verde-musgo guardando no sombrio aconchegante, o ninhário policromático da passarada. A sibilante sinfonia musicava o desencontro dos ponteiros anunciando o pender do sol. A tarde seguia lenta sob o hálito quente da boca da noite.

Chegamos à margem da cacimba. Veneza, a égua de estimação, bebeu água salobra enquanto eu tomava banho ensaboado com raspas de juá.

Os antigos roçados transformaram-se em pastagens de pangolas e coloniões a engordar os rebanhos do latifundiário.

Na casa em ruínas a infinidade de maribondos ensaiava uma dança nervosa recusando a minha presença. Os verdadeiros proprietários cederam lugar aos insetos e as pucumãs. Somente as almas sentidas dos ancestrais certamente vagueiam pelos escombros a mitigar saudades. A voz do silêncio azucrina os meus ouvidos. Os ontens duelam comigo na batalha inacabável das lembranças.

Procurei meu banquinho de umburana e não encontrei. O cedro centenário, lavrado, aquele que sobrara na construção da casa, nos idos de 1920, estendido no alpendre onde fazia as vezes de assento, fora levado para a cidade grande e transformado em mobília de luxo na mansão do fazendeiro.

Ainda bem que ouvi, no olho do paud’arco, um canário da terra desafiando a patativa, descendentes daqueles meus, criados com xerém de milho e deixados na fazenda no dia da minha partida: a plumagem era a mesma e o canto não desafinara.

A gata Mimi se não morreu de velha, sem dúvidas morreu de banzo.
Os armadores roncantes, vítimas da paraplegia ferruginosa, nem giram, nem roncam mais. O tilintar das esporas pretéritas estridula no quarto das selas interrompendo o sono dos morcegos notívagos.

Os cupinzeiros na cumeeira da sala semelham-se a monstros hidrocéfalos com sua carranca negra, funérea e destruidora.

Restam emperradas pela ferrugem, as dobradiças das portas para que ninguém tente fechá-las: não permitem que os vultos de antanho fiquem ali aprisionados no sufoco da acalmia e na ausência da liberdade

Olho para o chão. O acúmulo de poeira e umidade criou uma crosta espessa e não mais permite avistarem-se os ladrilhos fabricados por meu pai.

Tinha formiga como os trinta. Os leirões no canto do alpendre indicavam o ninho no subsolo da velha calçada em ruínas.

Lembro-me de quando pastoreava o gado para que não entrasse na lavoura do meu tio: num velho juazeiro o anteparo da sombra confortante. A funda e a baladeira serviam-me para conter as vacas teimosas e puladoras de cercas. Certa vez escrevi meu nome num dos galhos daquela árvore majestosa. Dela, agora, resta apenas o tronco decepado pela motosserra. A teimosia de uma resina antiga ainda perdura na casca seca simbolizando a espessa lágrima do protesto vegetal.


Os umbuzeiros que plantei, na minha adolescência, no oitão da casa, a pequena distância um do outro, estes sim, estão vigorosos e naturalmente prestaram-me uma singela, porém imensa homenagem: cresceram na horizontalidade e uniram-se num abraço cítrico louvando a Natureza. Ali está, também, o meu abraço.

Capiongo revejo o local da sala onde armava a minha rede. Com os olhos marejando volto-me para uma das janelas frontais do chalé e contemplo a serrania distante. A ramificação da Borborema tem no seu dorso um aglomerado de rochas imensas e desiguais. Numa delas, de muitas toneladas, encontra-se a furna do Sítio Laranjeiras, que pertencera também, a meu pai. O famoso “banho na furna” finou-se de repente. A água que brotava entre as duas rochas gigantescas e acumulava-se numa depressão arenosa, secou inexplicavelmente.

Dei de garra da tabica de jucá, montei na égua cardã e procurei largar de mão a casa amada que me serviu de berço.

O meu pegadio com a fazenda onde nasci trouxe para a minha alma uma saudade remanchona, persistente e possessiva.

Os meninos magricelas das redondezas olham para mim com certa desconfiança. Neles revejo o garoto campesino que fui e amigo confidente de tantos meninos pobres daquela terra. Meninos que no dia-a-dia das caçadas e do trabalho na roça, juntamente com seus pais, ensinaram-me, involuntariamente, grande parte dessa linguagem rica e tão em voga na intercomunicação das gentes interioranas da minha Paraíba. Linguagem nossa, pé no chão, linguagem cabocla, feijão com arroz, resistente ao tempo e ao desapego da cidade grande.

Solto, por fim, a égua marchadora nas terras verdejantes da minha aldeia. Sigo vagarosamente, sem olhar para trás, vou à Parada Massapé, pego a “Maria Fumaça” imaginária e volto carregado de saudades para as ruas violentas desta querida e acolhedora cidade do Recife.