Desafio

Quem se atreverá a ferir as begônias
e as avencas quando até os ventos
acautelam-se e reprimem a ânsia
de destruí-las?

Quem ousará cerrar as janelas guardando
no recato dos salões um ricto de solidão
quando nas ruas um canto fraterno une-se
à voz das folhas secas?

A quem caberá o direito de fechar
as comportas se salta do íntimo das águas
o constante aceno de quem está
sempre partindo?

Quem impedirá que na vastidão dos pastos
de inverno o tempo rumine o verde
e os pardais persigam os horizontes
molhados?

Quem tentará apagar as velas que se equilibram
nos candelabros se além das soleiras
a noite continua espessa e as estrelas mal tocam
o cimo dos montes?

Quem se julgará no direito de dissipar
o silêncio que sempre vem depois das grandes
revelações? E quando tudo for aquiescência
quem ousará dizer não?