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das Letras Por Lourival Holanda lourivalholanda@yahoo.com.br |
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| Avatar – as transformações sonhadas
Nos cinemas, Avatar, enquanto fenômeno cultural interessante: ao lado de tantos filmes catastróficos – repetitivos, com margem mínima de surpresa no modo de abordagem – Avatar concilia catástrofe e esperança. (Parece termos chegado a um momento onde a cultura não sabe mais se se entusiasma com o que cria, ou se se empolga com o que destrói; aos espetáculos de recriação, e às vezes, de real criação tecnológica, sucede o fascínio pelas temáticas de “fim de mundo”). Avatar revisita o tema do paraíso ainda deixando margem a um horizonte de possibilidade. Em dado momento Kafka já menciona essa preocupação: “Fomos criados para viver no paraíso; o paraíso nos estava destinado. Que o destino tenha mudado e o paraíso também, isso não está dito. Expulsos do paraíso, sim, mas nem por isso ele foi destruído. Essa expulsão é, de certa forma, uma sorte: porque, se não tivéssemos sido expulsos, teríamos destruído o paraíso”. Esse tema do paraíso corre desde a antiguidade, passa pela teologia medieval, deságua nos “descobrimentos” com a vinda dos europeus ao novo mundo das Américas. Apontar um paraíso possível é então dar-se razões para prosseguir com as insuficiências do presente. Nesse sentido, tem toda razão Victor Hugo: o Éden está, não no passado, mas no possível. Talvez seja essa uma das surpresas de Avatar. Se o filme funde ficção científica e misticismo, é porque há na cultura contemporânea uma vertente que aponta nessa direção e vê no progresso um dos nomes laicos de Deus. Por isso a rede neuro bio-botânica dos Na’vi faz pensar na concepção de Espinosa: Deus e Natureza como sendo emanação de uma mesma energia. Assim, a volta à natureza é um avançar na direção do mais que humano. A vida vive de avatares. No momento, o internauta cria uma ficção, um personagem, um mundo paralelo, e alarga ali, pelo virtual, as possibilidades do real. Na verdade, os tempos modernos apostaram no presente, colocaram aqui seu Éden, quando os grandes projetos desmoronaram. Sophia de Mello Brayner expressa isso de modo magistral: Pudesse eu não ter laço nem limites/ ó vida de mil faces transbordantes/ pra poder responder aos teus convites/ suspensos na surpresa dos instantes. Responder à cronologia com sua interrupção, nos momentos verticais. Isso, em literatura, não é novo. O conceito nietzschiano de “vivacidade” – não a vida eterna, mas a eterna vivacidade; isso é o que importa. Portanto, a perda da função poética seria uma redução, uma amputação ontológica – quando cada um se reduziria apenas ao real. O cinema está ainda preservando essa função. A realidade da idade reconciliada na e pela palavra e imagem poéticas. O filme mostra essa aposta no possível – quando a temática do catastrofismo está também tanto nas telas. Ou na insistência do History Chanel, na obsessão americana de como seria o mundo sem o homem. Compreensível, até: o que fazemos é para responder ou exorcizar o medo da insignificância que é o homem frente à natureza. Qual impacto pode ter um filme na formação de uma nova forma de ver o mundo? Isso é difícil de decidir, tanto depende do modo, do momento e de que público. É certo que algumas cenas exploram o lugar-comum dos filmes desse gênero. Talvez um artifício, didático até, de levar o expectador à satisfação que é reconhecer; antes de submetê-lo ao impacto do novo possível. A natureza sempre aparece na cultura ocidental como algo a ser dominado, colocado a serviço do homem. – que se julga senhor e proprietário dessa reserva de matéria-prima. Até aí, nenhuma novidade. O contato com o outro, contato mais real quando alguém consegue sair de si e se colocar no lugar do outro – aí está um momento feliz do filme. A desconfiança com a natureza se diz já na desconfiança com a natureza do outro. A primeira desconfiança resultou na divisão, no dualismo grego natureza x espírito, desde o século IV. Outra coisa que James Cameron soube explorar: a junção de religião e natureza. A temática toca, em muito, esses tempos desencontrados. As formas de religiosidade tomam logo uma feição política; decorrendo do fenômeno de massa, e resultando na necessidade de controle, de hierarquias. Daí o desgaste, na história, das formas religiosas institucionalizadas. Que a religião possa tornar desumano, essa é a suspeita que os tempos confirmaram. No filme, e esse é um dos lances de sua popularidade, tecnologia e natureza se reencontram num tempo idílico. Mas a cientista, Dra Grace Augustine, não pode ser salva: ela põe a verdade científica enquanto um sistema – e todo sistema é opressor. O mundo de Avatar não “crê” – ele “vive” a religiosidade enquanto uma energia que cria uma coerência unificadora. O sucesso de certos filmes pode vir daí: expõem-se ali questões candentes, atuais (e é atual tudo o que concorre para acrescentar elementos que façam repensar a complexidade do real imediato). Literatura e cinema não se dissociam. São, ambos, espaços de criação; criam-se mundos paralelos (como querem as teorias da astrofísica); mundos de ilusão, é certo. O cinema molda a cultura contemporânea – certamente mais que a literatura, até. Ontem, o acesso ao texto era mais rápido que o acesso à cátedra ou ao púlpito. Hoje, a rapidez marca e define o tempo: a circulação da palavra é mais imediata; e, sobretudo, a imagem a move. Importa mesmo é que a sociedade participe do movimento de criação e de re-criação de si. Cinema e literatura. Prefiro a partícula aditiva (e) a qualquer exclusão (ou). O homem cria ilusão – na tela ou no texto – para resistir a rudeza do real. Cria um espelho onde a realidade é vista de través – e já é a possibilidade ou a exigência de “outra realidade”. A consciência da falta desperta o desejo. Da mesma forma quando alguém encontra, de fato, o outro – e se espanta de como tinha, até então, estado só. O desastre real da cultura seria a indiferença frente ao futuro; ou frente às razões ou desrazões das coisas. Duro mesmo é a ausência – sem desejo. O filme do Cameron não é nenhuma obra-prima. No entanto, Cameron preparou durante muito tempo, essa surpresa. A surpresa do novo suporte – a visão em 3D – dentro em pouco pode ficar comum. Para mim, a obra prima por sair do lugar-comum do filme catastrófico e apontar a possibilidade de uma saída. Fazer o extremo da técnica encontrar um link com o éden, passado e quase supostamente perdido. Pandora é uma fábula. E as fábulas, seguindo lição de Vieira, porque não são, não podem nunca deixar de ser. Ou seja: sempre vão fazer parte constitutiva do homem – seu imaginário. Fácil defender cinema e literatura: fazem parte do projeto humano. (Claro que é necessário dar maior largueza vocabular a cinema e a literatura; conquanto guardem a capacidade de criar imagens; aí, Cameron ou Victor Hugo, contribuem, acrescentam, movem o mundo da cultura, democratizando algumas questões). A relação do cinema com a literatura não vem como suplência; menos ainda como ameaça de suplantar. São duas linguagens com signos intercambiáveis. Duas mídias, duas temporalidades. Uma raiz comum: em cada imagem, em cada palavra, o homem se pro-jeta, sai de si; portanto, uma possibilidade de ser mais – como se um caramujo sonhasse com a asa do anjo. Somos essa ambigüidade. Na sala do cinema, ou com o olho preso ao DVD, algo de nós escapa, vai mais longe. Há sempre uma Pandora possível. Paradoxal: a técnica é a mais ‘homogeneizada”, quase comum a todos; e no entanto, cada um, pelo imaginário do filme, escapa à tirania da igualdade – que é propriamente, o que sonhar significa. O imaginário de James Cameron não é o nosso, certo: mas instiga o nosso a pensar uma Pandora possível. Talvez o mérito do cinema seja o de levar adiante, pela criação contínua, a responsabilidade que temos ante o que ainda não somos. Enfim, avatar, avatares.
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