"O isolamento me levou à contemplação. Vi, pela primeira vez, plantação de girassóis, reluzente tapete estendendo-se até a colina. Pela manhã, na ida, olhavam-me risonhos; na volta, à tardinha, deram-me as costas... Aquela visão ressuscitou antigas lembranças: a princípio doces; depois, ruins. A ninguém atribuo estas, senão a mim mesmo: faltou-me sempre a percepção da hora certa. Jovem, não casei, alegando falta de condição financeira, mas, no fundo, indeciso entre as pretendentes; quando quis casar, tinha a idade de avô, passara a de pai. Não casei e nem tive filhos: não pude servir de Sol a girassol algum. (Aprendera tarde, muito tarde – como dói constatá-lo –: quem morre sem deixar herdeiros, morre várias vezes...).”
(Trecho do conto “O Dono do Girassol”, do livro “O Dono do Girassol e outros Contos”, páginas 15 e 16).
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“A nova força emergente no mundo – a que poderíamos chamar de Grande Sedução – embora potencialmente mais perversa que o Big Brother, afigura-se menos vulnerável devido ao seu formato: não se apoiará na brutalidade, mas no fanatismo; não se resumirá a um rosto carrancudo, desdobrar-se-á em múltiplas faces encantadoras; não coagirá pessoas, manipulará consciências; não aprisionará em masmorras, embotará a racionalidade; nada imporá, conquistará tudo; não dará ordens, colherá adulações. Dotada de sofisticação tecnológica para disfarçar vício, feiúra, ignorância e vulgaridade reais em qualidade, beleza, sabedoria e genialidade virtuais, iludirá até os sábios, não atrairá pra si ódio e revolta, mas idolatria e paixão.”
(Trecho do conto “Cordões Invisíveis”, do livro “Astúcias da Imaginação”, página 251).

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“Nem o tempo e nem o vento dispersam as palavras, se a tradição as captura e propaga, se os livros lhe dão acolhida e, como pássaros, elas esvoaçam em bandos, de ouvido em ouvido, de boca em boca, ganhando ninhos e mais ninhos nos esconderijos da alma. Se as palavras designam lugares sobrevivem não apenas na lembrança das pessoas, mas na rocha, na areia, na água, no sítio arqueológico e até no pó das ruínas... Ao viajante resta a emoção de contemplar o monte, o lago, o rio, a muralha, a paisagem ou simplesmente os destroços de uma moradia ou de um povoado e associá-los aos nomes e aos fatos gravados na memória, estabelecendo pontes entre o passado e o presente, o imaginário e a realidade, a lembrança e o olhar, o coração do menino e o coração do ho mem, numa deliciosa comparação do que se pensava ser como o que é, digo deliciosa, pois o que é, por mais diferente que se revele sob o aspecto objetivo, jamais apagará por completo o que se pensou ser.”


* Trecho do livro “Sete Dias na Terra Santa”, páginas 176,177